Quase toda a gente que passava ou parava na zona envolvente à Praça do Pelourinho, conhecia o Vicente. Era uma figura popular, embora não fosse propriamente e em rigor, um habitante da cidade. O “Vicente” era um corvo. Não se sabia muito bem quando, o animal aparecera por ali e fizera poiso num espaço algures na Rua Comendador Veiga, exactamente nas traseiras do mais importante clube desportivo da Cidade. Alguém, que simpatizara com o animal improvisara-lhe por ali um poleiro, junto do qual o bicho sempre encontrava água e algum alimento. Era a sua casa.
As pessoas foram-se habituando aos gritos estridentes do corvo e ele lá fazia a sua vida voando livremente sobre os céus da cidade. Isto durou anos. Um dia, há sempre um dia como diz a canção, o Vicente meteu-se numa encrenca. A natureza que o criou, esquecera-se de o instruir sobre a existência de uma instituição fundamental da sociedade, a que todos os seres, - incluindo os corvos -, têm de obedecer para conviverem com os humanos: respeitar a propriedade individual. Isto, independentemente do que sobre o assunto, dissesse e pensasse Proudhon ao escrever o livro “Que é a Propriedade?” que, naturalmente o Vicente não pudera ler, e poucos conheciam até a existência.
Quem não quis mesmo saber dessas teorias para coisa alguma foi o cidadão Manuel Paulo Rato Júnior, que sem mais aquelas, apresentou formalmente uma queixa na Polícia contra o Vicente, acusando-o de lhe ter roubado “uma escova do limpa pára-brisas” do seu automóvel. Ninguém na cidade, ao conhecer-se o facto, encontrou explicação para a razão de o Vicente se interessar pelas escovas de pára-brisas do senhor Rato Júnior. Mas a queixa estava feita e havia que tomar providências, até porque, segundo o chefe da Polícia, já havia outras queixas de actuações do Vicente, que demonstravam bem o seu total desprezo pela propriedade alheia. A condenação do corvo foi, tal como a dos atenienses – o ostracismo. Por decisão do referido chefe da polícia da cidade, o Vicente foi levado para longe. Foi conduzido até à nascente do Zêzere na Serra da Estrela. Não há notícias da forma como reagiu à sua condição de exilado ou, se ainda hoje, quem o saberá, faz voos solitários, naquela sua obsessão pela busca de escovas de limpa pára-brisas.
Enquanto o Vicente caminhava para o exílio, noutra zona do mundo – o Quénia -, então uma possessão de Inglaterra, aí sim, a violência era a sério. Tinha começado a insurreição dos Mau-Mau que se veio a saldar, quando da sua extinção. sete anos após, por 13 mil mortes, das quais cerca de 1600 tiveram origem em enforcamentos. Eram os primeiros ventos da violência que iria varrer a África. Nesse dia, o jornal “O Século” que começou a ser distribuído na cidade cerca das 16 horas, tinha como tema de capa a reunião em "Ciudad" Rodrigo de Salazar e Franco. Na orelha direita do cabeçalho do jornal que João Pereira da Rosa dirigia, estava uma data: 1952.
sexta-feira, 12 de março de 2010
terça-feira, 2 de março de 2010
Fujam! Vem aí o Teófilo!
Vem aí o Teófilo. Fujam!...
Palavras com «êxodo da população» e «refugiados», não é habitual serem referidas quando se fala na História da Covilhã. Mas, ainda que em escala mal definida, essas coisas aconteceram por aqui e o Pelourinho é, uma vez mais, testemunha desse tempo conturbado.
Basta que apontemos o ponteiro do tempo e da memória para o ano de 1919 do século XX. Em Janeiro, com a dramaticidade de um verdadeiro «salve-se-quem-puder», uma palavra de ordem foi passando na população de boca em boca: - “Vêm aí o Teófilo. Fujam!”. Este episódio só o conheço devido a tradição oral que o trouxe até mim. Diversas vezes ouvi pessoas mais velhas referirem-se ao incidente, relatando que, - “...então muita gente abandonou as suas casas, de onde retirou apressadamente roupas, víveres e até imagens de santos, para se ir refugiar algures nos arredores e na floresta da encosta da Serra”.
O episódio tem um suporte histórico. É factual que em 10 de Janeiro de 1919 ocorreu uma «revolta republicana» na Covilhã e em outras cidades do país. Para forçar a rendição dos revoltosos, que ocorreria em 15 de Janeiro, veio ocupar militarmente a cidade uma coluna militar – ficou conhecida como a «coluna negra» - comandada pelo então tenente Teófilo Duarte.
Este era apoiante de Sidónio e curiosamente tinha estudado neste Distrito, no Colégio de São Fiel, próximo da Covilhã, um colégio dos jesuítas. Após a morte de Sidónio Pais, foi alto-comissário no distrito de Castelo Branco, tendo-se revoltado contra o governo de José Relvas. Para se entender algo que parece insólito – terem eclodido na Covilhã e em outros pontos do país «revoltas republicanas» - quando o República era o regime oficial do país desde 1910, terá que aprofundar-se um pouco o ambiente político e social que então se vivia em Portugal.
Sidónio Pais, justamente apelidado de Presidente-Rei, tinha «reinventado» a República e a Constituição de 1911 por forma a criar uma figura política, então ainda não conhecida no Portugal republicano: o presidencialismo. Fora assassinado em Lisboa um mês antes e o rasto político que deixara no país estava longe de se extinguir. Remotamente, as suas ideias para Portugal iriam ter continuidade no surgimento do Estado Novo após a revolução de 1926.
Para se compreender o que foi o consulado de Sidónio Pais – tão idolatrado pelo povo humilde e a expectativa benévola da União Operária Nacional, quanto odiado pelos republicanos mais radicais e pela sempre poderosa Maçonaria – bastará dar um pequeno exemplo: o Governo de Sidónio não tinha ministros, apenas secretários de Estado, ignorando completamente o Congresso dos Deputados que, por sua vez, o hostilizava abertamente.
O Congresso dos Deputados, aquele lugar onde seria suposto serem feitas serenamente e com competência as leis que iriam reger a República, era – infelizmente ainda é, muitas vezes - um local onde se fazia tudo por exibir o lado mais negativo do parlamentarismo – onde se trocavam insultos e acusações pessoais e políticas entre os congressistas, quando não bengaladas e desafios para duelos.
Interpretando tudo isso Sidónio entendeu que, no interesse superior do país, deveria ignorar por completo o Congresso e governar mesmo quando em evidente ruptura com a Constituição de 1911.
Noutro movimento inconstitucional, a 11 de Março de 1918 por decreto, estabeleceu o sufrágio directo e universal para a eleição do Presidente da República, subtraindo-se à necessidade de legitimação no Congresso e enveredando por uma via claramente plebiscitária. Sidónio Pais governava através de decretos, por vezes ditatoriais.
Por tudo isto, dizia-se que havia uma “República Velha”, a que assentava nos cânones da Constituição de 1911 e uma “República Nova”, a sua.
Seria assassinado uma mês antes de ocorrerem os acontecimentos relatados na Covilhã, onde eclodira uma revolta de partidários da República Velha. Todo esse encadear de acontecimentos iriam enquadrar-se naquilo que ficou conhecido por Monarquia do Norte, entre Janeiro e Fevereiro que comentará num outro texto.
Realmente Portugal teve nesse ano uma experiência radical de regionalização: Durante cerca de dois meses o país viveu a experiência política de ter duas regiões demarcadas até ao limite e em cada uma delas, regimes diferentes: uma República e uma Monarquia. Quando hoje se propõe dividir o nosso pequeno país em micro reinos da burocracia, para dar emprego a políticos desocupados que levarão atrás de si pequenos batalhões de funcionários inúteis e dispensáveis que o Orçamento do Estado terá de pagar, devíamos reflectir no país historicamente somos.
Palavras com «êxodo da população» e «refugiados», não é habitual serem referidas quando se fala na História da Covilhã. Mas, ainda que em escala mal definida, essas coisas aconteceram por aqui e o Pelourinho é, uma vez mais, testemunha desse tempo conturbado.
Basta que apontemos o ponteiro do tempo e da memória para o ano de 1919 do século XX. Em Janeiro, com a dramaticidade de um verdadeiro «salve-se-quem-puder», uma palavra de ordem foi passando na população de boca em boca: - “Vêm aí o Teófilo. Fujam!”. Este episódio só o conheço devido a tradição oral que o trouxe até mim. Diversas vezes ouvi pessoas mais velhas referirem-se ao incidente, relatando que, - “...então muita gente abandonou as suas casas, de onde retirou apressadamente roupas, víveres e até imagens de santos, para se ir refugiar algures nos arredores e na floresta da encosta da Serra”.
O episódio tem um suporte histórico. É factual que em 10 de Janeiro de 1919 ocorreu uma «revolta republicana» na Covilhã e em outras cidades do país. Para forçar a rendição dos revoltosos, que ocorreria em 15 de Janeiro, veio ocupar militarmente a cidade uma coluna militar – ficou conhecida como a «coluna negra» - comandada pelo então tenente Teófilo Duarte.
Este era apoiante de Sidónio e curiosamente tinha estudado neste Distrito, no Colégio de São Fiel, próximo da Covilhã, um colégio dos jesuítas. Após a morte de Sidónio Pais, foi alto-comissário no distrito de Castelo Branco, tendo-se revoltado contra o governo de José Relvas. Para se entender algo que parece insólito – terem eclodido na Covilhã e em outros pontos do país «revoltas republicanas» - quando o República era o regime oficial do país desde 1910, terá que aprofundar-se um pouco o ambiente político e social que então se vivia em Portugal.
Sidónio Pais, justamente apelidado de Presidente-Rei, tinha «reinventado» a República e a Constituição de 1911 por forma a criar uma figura política, então ainda não conhecida no Portugal republicano: o presidencialismo. Fora assassinado em Lisboa um mês antes e o rasto político que deixara no país estava longe de se extinguir. Remotamente, as suas ideias para Portugal iriam ter continuidade no surgimento do Estado Novo após a revolução de 1926.
Para se compreender o que foi o consulado de Sidónio Pais – tão idolatrado pelo povo humilde e a expectativa benévola da União Operária Nacional, quanto odiado pelos republicanos mais radicais e pela sempre poderosa Maçonaria – bastará dar um pequeno exemplo: o Governo de Sidónio não tinha ministros, apenas secretários de Estado, ignorando completamente o Congresso dos Deputados que, por sua vez, o hostilizava abertamente.
O Congresso dos Deputados, aquele lugar onde seria suposto serem feitas serenamente e com competência as leis que iriam reger a República, era – infelizmente ainda é, muitas vezes - um local onde se fazia tudo por exibir o lado mais negativo do parlamentarismo – onde se trocavam insultos e acusações pessoais e políticas entre os congressistas, quando não bengaladas e desafios para duelos.
Interpretando tudo isso Sidónio entendeu que, no interesse superior do país, deveria ignorar por completo o Congresso e governar mesmo quando em evidente ruptura com a Constituição de 1911.
Noutro movimento inconstitucional, a 11 de Março de 1918 por decreto, estabeleceu o sufrágio directo e universal para a eleição do Presidente da República, subtraindo-se à necessidade de legitimação no Congresso e enveredando por uma via claramente plebiscitária. Sidónio Pais governava através de decretos, por vezes ditatoriais.
Por tudo isto, dizia-se que havia uma “República Velha”, a que assentava nos cânones da Constituição de 1911 e uma “República Nova”, a sua.
Seria assassinado uma mês antes de ocorrerem os acontecimentos relatados na Covilhã, onde eclodira uma revolta de partidários da República Velha. Todo esse encadear de acontecimentos iriam enquadrar-se naquilo que ficou conhecido por Monarquia do Norte, entre Janeiro e Fevereiro que comentará num outro texto.
Realmente Portugal teve nesse ano uma experiência radical de regionalização: Durante cerca de dois meses o país viveu a experiência política de ter duas regiões demarcadas até ao limite e em cada uma delas, regimes diferentes: uma República e uma Monarquia. Quando hoje se propõe dividir o nosso pequeno país em micro reinos da burocracia, para dar emprego a políticos desocupados que levarão atrás de si pequenos batalhões de funcionários inúteis e dispensáveis que o Orçamento do Estado terá de pagar, devíamos reflectir no país historicamente somos.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Divisões Panzer Chegam aos Pirinéus
A Emissora Nacional deu a notícia logo às primeiras horas daquele dia de Junho de 1940: «Paris tinha sido ocupada pelos Alemães!» No grupo de pessoas que habitualmente ia à loja do Romano comprar o jornal e aí ficava a comentar a actualidade, a opinião era unânime: - «os exércitos de Hitler estavam imparáveis, e a ocupação da restante Europa ocidental, mera questão de tempo e de estratégia político-militar». Alguém acrescentou a informação, ouvida na noite anterior na BBC, de que as poderosas Divisões Panzer estariam já concentradas nos Pirinéus aguardando instruções para executar a Operação Felix - a ocupação da Península Ibérica. Sentia-se medo no ar.
Em Lisboa, o Conselho de Ministros reunido em S. Bento, avaliava, preocupado a situação internacional: a França estava reduzida a um terço do seu território depois da instalação em Vichy de um governo francês colaborante com o invasor alemão e, em consequência do recente encontro de Hitler com Franco em Hendaya, na fronteira franco-espanhola, temia-se uma aproximação entre a Espanha e a Alemanha. A agressividade contra Portugal, da imprensa espanhola afecta à “Falange” de Franco, já não pressagiava nada de bom. Salazar e a diplomacia portuguesa, jogam com uma habilidade que teria por recompensa final, o mantimento do país fora do cenário da guerra, com o estatuto de país neutral e não beligerante. Ainda assim, saber-se-ia depois que, na pior das hipóteses, o Governo tinha um plano de contingência, pronto para ser executado e que passava, entre outras medidas, por se transferir para os Açores, se necessário.
Enquanto isso, os escaparates das livrarias exibiam o grande sucesso literário do momento: o livro de Arthur Koestler, “O Zero e o Infinito”: uma crítica contundente ao despotismo estalinista, que valeu ao autor a inimizade dos escritores Jean-Paul Sartre e Albert Camus.
Era também um livro que marcaria toda uma geração de comunistas – Partido ao qual o autor, um judeu húngaro que abandonara o seu país para escapar a um «pogrom» anti-semita - chegou a pertencer até 1938. Koestler, viveu então um longo e acidentado percurso, com uma participação na Guerra Civil espanhola e uma passagem pela Legião estrangeira (esta para evitar uma deportação para Leste), até encontrar refúgio em Inglaterra.
A frase-chave de “O Zero e o Infinito”, ficaria para sempre a pairar sobre a “realidade negra” do chamado socialismo científico: - “O Partido nunca se engana, camarada. Tu e eu podemos enganar-nos. Mas não o Partido. O Partido é alguma coisa mais do que tu e eu e que mil outros como tu e eu. O Partido é a incarnação da ideia revolucionária na História”. “O Zero e o Infinito”, é um desses livros que ultrapassam a sua época. Não é apenas um retrato de uma nação e seu sistema político, mas também, um “close-up” dramático sobre o estalinismo e os Processos de Moscovo.
Numa mesa à entrada no Café Central comentava-se elogiosamente a recente abertura da Exposição do Mundo Português na Praça do Império em Lisboa, que algumas pessoas do grupo já tinham visitado e por isso a recomendavam aos outros. Na altura, nenhum deles o poderia saber, mas ter-se-iam de esperar quase 70 anos para que um evento de dimensão semelhante, a Expo 98, tivesse lugar em Portugal.
(PL940)
Em Lisboa, o Conselho de Ministros reunido em S. Bento, avaliava, preocupado a situação internacional: a França estava reduzida a um terço do seu território depois da instalação em Vichy de um governo francês colaborante com o invasor alemão e, em consequência do recente encontro de Hitler com Franco em Hendaya, na fronteira franco-espanhola, temia-se uma aproximação entre a Espanha e a Alemanha. A agressividade contra Portugal, da imprensa espanhola afecta à “Falange” de Franco, já não pressagiava nada de bom. Salazar e a diplomacia portuguesa, jogam com uma habilidade que teria por recompensa final, o mantimento do país fora do cenário da guerra, com o estatuto de país neutral e não beligerante. Ainda assim, saber-se-ia depois que, na pior das hipóteses, o Governo tinha um plano de contingência, pronto para ser executado e que passava, entre outras medidas, por se transferir para os Açores, se necessário.
Enquanto isso, os escaparates das livrarias exibiam o grande sucesso literário do momento: o livro de Arthur Koestler, “O Zero e o Infinito”: uma crítica contundente ao despotismo estalinista, que valeu ao autor a inimizade dos escritores Jean-Paul Sartre e Albert Camus.
Era também um livro que marcaria toda uma geração de comunistas – Partido ao qual o autor, um judeu húngaro que abandonara o seu país para escapar a um «pogrom» anti-semita - chegou a pertencer até 1938. Koestler, viveu então um longo e acidentado percurso, com uma participação na Guerra Civil espanhola e uma passagem pela Legião estrangeira (esta para evitar uma deportação para Leste), até encontrar refúgio em Inglaterra.
A frase-chave de “O Zero e o Infinito”, ficaria para sempre a pairar sobre a “realidade negra” do chamado socialismo científico: - “O Partido nunca se engana, camarada. Tu e eu podemos enganar-nos. Mas não o Partido. O Partido é alguma coisa mais do que tu e eu e que mil outros como tu e eu. O Partido é a incarnação da ideia revolucionária na História”. “O Zero e o Infinito”, é um desses livros que ultrapassam a sua época. Não é apenas um retrato de uma nação e seu sistema político, mas também, um “close-up” dramático sobre o estalinismo e os Processos de Moscovo.
Numa mesa à entrada no Café Central comentava-se elogiosamente a recente abertura da Exposição do Mundo Português na Praça do Império em Lisboa, que algumas pessoas do grupo já tinham visitado e por isso a recomendavam aos outros. Na altura, nenhum deles o poderia saber, mas ter-se-iam de esperar quase 70 anos para que um evento de dimensão semelhante, a Expo 98, tivesse lugar em Portugal.
(PL940)
As "Mentes Brilhantes" que os Lanifícios não Tiveram
Quando a indústria dos lanifícios começou a descaracterizar-se, a desligar-se do seu “ethos” próprio, e a caminhar rumo a uma autodestruição anunciada e selectiva, alguns sabiam isso conscientemente. Mas não acharam oportuno, denunciar qualquer existência individual de conflito de interesses, ... porque esse "status" lhes iria abrir o caminho rumo ao monopólio magnificente das suas empresas e à cartelização restrita que hoje se pode observar.
Não seria também necessário ser demasiado optimista, para calcular que os "ignorantes de serviço" espalhados pelos vários centros de decisão e acompanhamento económico aos lanifícios, lhes viessem, sobremaneira pelo facto de terem alguma visão em terra de cegos, a oferecer, mais tarde ou mais cedo, as honrarias e "comendas" devidas pelos "relevantes" serviços empresariais prestados à comunidade.
Para os milhares de trabalhadores têxteis que protagonizaram essa mudança nos tempos, o trabalho nas fábricas - agora geridas por monopólios e cartéis -, passou a ser relativamente descartável. Foi a acção reflexa das políticas económico-industriais seguidas em meados do século XX, (erradas ou certas, consoante os interesses em causa...). Restou-lhes seguir o trajecto dos perdedores e, muitos deles, ainda não fazem ideia da teia de interesses que os desfavoreceu porque, dizem-lhes hoje, os verdadeiros culpados foi o Estado Novo, o condicionamento industrial, a falta de liberdades e de greves e, a sempre presente crise multi-funções.
A visão estratégica e o planeamento a longo prazo, realmente não estavam ao alcance dos então “Fabricantes” de Lanifícios e, por paradoxal que pareça, ainda menos à dos seus organismos de classe, onde pontuavam umas quantas “mentes brilhantes” ornadas com vistosos títulos académicos de universidades estrangeiras. Escreveu-se alguma coisa, falou-se muito e, sobretudo , teorizou-se, mas sempre na óptica tecnocrática dos adeptos das soluções feitas e prontas a servir, enfim, porque, lá fora... bla.bla,bla.
Não se ouviu então qualquer voz que encarasse a possibilidade de alavancar toda uma cultura têxtil da lã já existente (“know how”) nesta cidade-região, transmitida de pais a filhos, nem o reconhecimento da potencial vantagem competitiva que constituía esse “saber adquirido” tradicional. Às “mentes brilhantes” de então, foi necessário uns anos depois, vir um economista. Michael Porter, explicar-lhes, devagarinho, as vantagens competitivas dos “clusters” locais nas economias modernas. Essa mesma realidade que já existia aqui quanto à lã, e apenas necessitada de ser valorizada, modernizada e gerida por forma sustentável.
Claro que muitas micro-empresas dos lanifícios iriam inevitavelmente perder a sua razão de existir pela inexorabilidade das dinâmicas dos mercados; mas, em paralelo, já existia aqui um enorme potencial para a criação de novas pequenas empresas, técnica e economicamente avançadas, assentes em novas tecnologias e saberes. Bastava que as “forças” que gravitavam em torno dos lanifícios, ajudassem o Estado a por em prática politicas de fomento da actividade industrial residente: mas as “políticas certas!”. - e não se limitasse a copiar modelos de catálogo macroeconómico desajustados da especificidade local dos Lanifícios.
Mal amados então pelos tecnocratas, nacionais e locais, que menorizavam quem não exibisse um título académico atrás do nome, foi então ostracizado todo um potencial para a criação de ninhos de novas pequenas empresas de lanifícios, assentes na experiência e competências de residentes com saber adquirido nos cursos têxteis da Escola Industrial Campos Mello, por onde estavam já estavam então a passar, na qualidade de professores-convidados, personalidades do mundo da ciência têxtil do gabarito de um Professor Galcerán Escobet, vindo directamente da Universidade de Tarrassa, e a quem, já depois de ter saído desta cidade-região, o governo espanhol distinguiu com um dos mais elevados graus académicos de Espanha.
Alguns desse técnicos e artistas têxteis saídos da referida escola, sem as condições de capital e incentivos mínimas para tomarem o caminho do empreendedorismo nos lanifícios, eram posteriormente disputados pela grande indústria instalada em torno da lã, e aí retribuídos com remunerações tão elevadas – casos de José Maria Gabriel e Fernando Bidarra e dezenas de outros - que hoje teríamos de ir ao mundo do futebol profissional de alto nível, para encontrar aí valores monetários paralelos.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Quando os Juizes Abraçavam os Réus
Ao findar esse dia de 1975 o Pelourinho viu o senhor Gonçalves passar, no seu caminhar tranquilo e aprumado que lhe ficara de uma longa carreira militar de que entretanto se aposentara. Era fácil saber para onde se dirigia. Frequentador diário do Ginásio (Clube da Covilhã) de que era um dos sócio mais antigos, ia para lá, como ele costumava dizer, “dar uma vista de olhos pelas «gordas» dos jornais» na confortável sala de leitura do clube.
O Ginásio já não era o mesmo onde ele entrara pela primeira vez nos anos 30, mas ainda era um sítio relativamente agradável embora agora transpusessem a sua elegante porta circular, um género de pessoas que não se sentiriam bem lá, apenas alguns anos atrás. O antigo serviço de bufete volante para os sócios frequentadores, cedera o lugar a um bar vulgar no piso superior, local algo barulhento onde muitos dos tais que não se assomariam por ali antes, bebiam, falavam alto e enfim... tinham o comportamento natural da nova classe social então emergente – a dos trabalhadores-proletários, politizados à pressa e mentalizados no “...isto agora é tudo nosso. O Fascismo acabou!”, porque entretanto ocorrera um “puch” militar (ou uma revolução, conforme o critério) e os tempos, as mentalidades e as pessoas – já eram outros.
Tempos houvera em que os sócios do Ginásio, que ali iam para jogar as cartas ou utilizar um das quatro bem cuidadas mesas de uma luxuosa sala bilhar clássica, com candeeiros a incidir somente em cima dos panos verdes das mesas, contavam com um serviço de bufete que era levado até ao sócio através do empregado Silva (um ancião quando o conheci), que por sua vez tinha um supervisor: um também idoso mordomo, sempre de fato escuro e ar grave, tipo inglês, a que os sócios tratavam com certa deferência por Senhor Beja.
O Ginásio era o mais importante clube social da classe média da cidade; a classe “alta”, endinheirada ou simplesmente snobe, reunia-se no Clube União. Não é que as inscrições para sócios de qualquer destes clubes impusessem qualquer tipo de descriminação social, mas ela acontecia naturalmente: cada um procurava entrar para o clube onde estavam as pessoas do seu meio, do seu círculo de amigos, e encontrarem um ambiente agradável onde se sentisse confortavelmente. Por isso, frequentavam o Ginásio, empregados (recorde-se que então havia nas empresas e na própria legislação laboral, distinção formal entre empregados e operários), quadros das empresas, comerciantes, funcionários etc. Gente de trabalho mas com um certo nível comportamental.
Mas, logo que entrou na sala de leitura, alguém lhe chamou a atenção para um determinado assunto que os jornais publicavam. E ele, nesse dia 16 de Maio de 1975, ficou mais tempo a ler os jornais do que costumava fazer, quando simplesmente passava os olhos pelas «gordas”...
A edição do Público debruçava-se sobre incidentes relacionados com o chamado PREC (Programa Revolucionário em Curso), que começara logo após o golpe militar de Abril 74. A propósito transcrevia o testemunho que, em Maio de 1975, o jornalista Carlos Coutinho fizera chegar ao Tribunal do Barreiro, onde estava a ser julgado um militante da organização armada do Partido Comunista, a ARA (Acção Revolucionária Armada). Carlos Coutinho depôs a favor de Fernando dos Santos Gonçalves acusado de, em 1965, ter desviado 13 mil contos (65 mil euros) da delegação bancária onde desempenhara as funções de subgerente: "Esse dinheiro saiu de mãos onde não devia estar e foi para mãos onde devia estar. (...) Choca-me ver sentado no banco dos réus um revolucionário; um revolucionário, depois do 25 de Abril, deve julgar e não ser julgado", concluía Carlos Coutinho.
Citações de Lenine, Brecht e Cunhal fundamentaram a tese da defesa de que "um revolucionário, depois do 25 de Abril, deve julgar e não ser julgado". O juiz deu como provados os factos, mas considerou-os amnistiados. Em seguida, pediu desculpa ao réu que estivera um mês na prisão a aguardar julgamento. "Em nome do tribunal, quero dizer-lhe que lamento profundamente este mês de prisão que passou." E por fim abraçou-o. Em perfeita sintonia com as teses da superioridade moral do antifascismo,
Sobre o mesmo assunto, O Século de 16 de Maio de 1975 compôs o seguinte título: "Militante anti-fascista finalmente amnistiado" e desenvolveu uma prosa exaltante, quase épica: "Julgador e julgado abraçaram-se, logo esse abraço se multiplicando pela assistência, que não prescindiu de saudar o seu companheiro, militante antifascista, ontem restituído à liberdade, e que o aguarda, novamente, nos bancos agora do povo, onde poderá utilizar o curso de economia política que tirou no exílio (...) para a construção de um Portugal democrático e socialista."
Era assim Portugal nesses tempos...
O Ginásio já não era o mesmo onde ele entrara pela primeira vez nos anos 30, mas ainda era um sítio relativamente agradável embora agora transpusessem a sua elegante porta circular, um género de pessoas que não se sentiriam bem lá, apenas alguns anos atrás. O antigo serviço de bufete volante para os sócios frequentadores, cedera o lugar a um bar vulgar no piso superior, local algo barulhento onde muitos dos tais que não se assomariam por ali antes, bebiam, falavam alto e enfim... tinham o comportamento natural da nova classe social então emergente – a dos trabalhadores-proletários, politizados à pressa e mentalizados no “...isto agora é tudo nosso. O Fascismo acabou!”, porque entretanto ocorrera um “puch” militar (ou uma revolução, conforme o critério) e os tempos, as mentalidades e as pessoas – já eram outros.
Tempos houvera em que os sócios do Ginásio, que ali iam para jogar as cartas ou utilizar um das quatro bem cuidadas mesas de uma luxuosa sala bilhar clássica, com candeeiros a incidir somente em cima dos panos verdes das mesas, contavam com um serviço de bufete que era levado até ao sócio através do empregado Silva (um ancião quando o conheci), que por sua vez tinha um supervisor: um também idoso mordomo, sempre de fato escuro e ar grave, tipo inglês, a que os sócios tratavam com certa deferência por Senhor Beja.
O Ginásio era o mais importante clube social da classe média da cidade; a classe “alta”, endinheirada ou simplesmente snobe, reunia-se no Clube União. Não é que as inscrições para sócios de qualquer destes clubes impusessem qualquer tipo de descriminação social, mas ela acontecia naturalmente: cada um procurava entrar para o clube onde estavam as pessoas do seu meio, do seu círculo de amigos, e encontrarem um ambiente agradável onde se sentisse confortavelmente. Por isso, frequentavam o Ginásio, empregados (recorde-se que então havia nas empresas e na própria legislação laboral, distinção formal entre empregados e operários), quadros das empresas, comerciantes, funcionários etc. Gente de trabalho mas com um certo nível comportamental.
Mas, logo que entrou na sala de leitura, alguém lhe chamou a atenção para um determinado assunto que os jornais publicavam. E ele, nesse dia 16 de Maio de 1975, ficou mais tempo a ler os jornais do que costumava fazer, quando simplesmente passava os olhos pelas «gordas”...
A edição do Público debruçava-se sobre incidentes relacionados com o chamado PREC (Programa Revolucionário em Curso), que começara logo após o golpe militar de Abril 74. A propósito transcrevia o testemunho que, em Maio de 1975, o jornalista Carlos Coutinho fizera chegar ao Tribunal do Barreiro, onde estava a ser julgado um militante da organização armada do Partido Comunista, a ARA (Acção Revolucionária Armada). Carlos Coutinho depôs a favor de Fernando dos Santos Gonçalves acusado de, em 1965, ter desviado 13 mil contos (65 mil euros) da delegação bancária onde desempenhara as funções de subgerente: "Esse dinheiro saiu de mãos onde não devia estar e foi para mãos onde devia estar. (...) Choca-me ver sentado no banco dos réus um revolucionário; um revolucionário, depois do 25 de Abril, deve julgar e não ser julgado", concluía Carlos Coutinho.
Citações de Lenine, Brecht e Cunhal fundamentaram a tese da defesa de que "um revolucionário, depois do 25 de Abril, deve julgar e não ser julgado". O juiz deu como provados os factos, mas considerou-os amnistiados. Em seguida, pediu desculpa ao réu que estivera um mês na prisão a aguardar julgamento. "Em nome do tribunal, quero dizer-lhe que lamento profundamente este mês de prisão que passou." E por fim abraçou-o. Em perfeita sintonia com as teses da superioridade moral do antifascismo,
Sobre o mesmo assunto, O Século de 16 de Maio de 1975 compôs o seguinte título: "Militante anti-fascista finalmente amnistiado" e desenvolveu uma prosa exaltante, quase épica: "Julgador e julgado abraçaram-se, logo esse abraço se multiplicando pela assistência, que não prescindiu de saudar o seu companheiro, militante antifascista, ontem restituído à liberdade, e que o aguarda, novamente, nos bancos agora do povo, onde poderá utilizar o curso de economia política que tirou no exílio (...) para a construção de um Portugal democrático e socialista."
Era assim Portugal nesses tempos...
Sapato Apertado, Não!
Por aqui na Cidade, durante a década de 50, verificaram-se alguns escassos vislumbres do que viria a ser a revolução sexual do pós-guerra nas décadas seguintes. Entre nós, essas coisas, sejam costumes, cultura ou ciência, vem normalmente tarde e de fora para dentro. Como dizia Eça de Queirós: importamos tudo a começar pelas ideias.
Havia e continuou a haver uma moral sexual pública, oficiosa e supostamente conforme com os bons costumes, muito formatada pelas doutrinas da Igreja Católica, que sempre entendeu que sexo e demónio eram sinónimos ou andavam por perto. Paralelamente coexistia uma outra moral privada, mais livre de dogmas, em que cada um fazia aquilo que em consciência achava melhor, e a própria sociedade enquanto tal, tolerava, desde que se mantivesse um mínimo de decência e recato.
Para o exterior, vinham somente os médios ou grandes desvios às normas morais instituídas, quando caíam no domínio público e se constituíam então em escândalos à escala local, quando protagonizados por figuras conhecidas, ou ainda pequenas histórias picarescas, apimentadas com algum sexo, que o “contaram-me” e o “ouvi dizer” ia propagando pela cidade.
Na altura ficou famosa e correu gerações, uma cantiga contendo uns versos brejeiros que envolviam sexualmente um comerciante, o Francisquinho da Padaria com uma outra pessoa. Os que ainda recordam a cantiga e os versos, sabem ao quem me refiro ...
Outra história picaresca teria ocorrido aqui nesses anos 50; quem conheceu a senhora em questão diz que ela negava a veracidade da história. Seja como for, a que circulou era assim: a senhora, à época, trabalhava na fábrica do industrial José V. – um ex-operário que conseguira ascender ao empresariado têxtil - de quem seria também amante, ... com a “tolerância” do marido, porque, enfim, a vida estava má e dali sempre entrava “algum” para a casa.
Num certo dia o nosso Zé V., parou o carro lá à porta a uma hora inusitada. Enquanto subia a escada, a senhora teria dito ao marido: - “Esconde-te que vem aí o senhor Zé!”; o referido não precisou que lhe repetissem a ordem e, como a casa era pequena e não havia outro sítio para se esconder (nas comédias de costumes costuma haver um roupeiro que salva a situação, mas neste caso não havia), meteu-se rapidamente debaixo da cama do casal.
O patrão Zé entra para o quarto e começa logo por dizer à operária, que estava com bastante pressa porque ia dali directamente para Lisboa. – “Passei só para perguntar se precisas que traga alguma coisa para ti?” - Ela responde que não. – “E o teu homem precisará de alguma coisa?" – Ela, hesita, pensa um pouco e diz: - “Só se fossem uns sapatos senhor Zé!...”. O outro pergunta: - “Que número é que ele calça?”. – “É.... (pensa um pouco), 39!”. O marido, debaixo da cama já se está a ver com uns sapatos apertados e não se contém: do seu esconderijo diz: - “Ó minha burra! Não é 39, é 40 !” ....
(PL951)
Havia e continuou a haver uma moral sexual pública, oficiosa e supostamente conforme com os bons costumes, muito formatada pelas doutrinas da Igreja Católica, que sempre entendeu que sexo e demónio eram sinónimos ou andavam por perto. Paralelamente coexistia uma outra moral privada, mais livre de dogmas, em que cada um fazia aquilo que em consciência achava melhor, e a própria sociedade enquanto tal, tolerava, desde que se mantivesse um mínimo de decência e recato.
Para o exterior, vinham somente os médios ou grandes desvios às normas morais instituídas, quando caíam no domínio público e se constituíam então em escândalos à escala local, quando protagonizados por figuras conhecidas, ou ainda pequenas histórias picarescas, apimentadas com algum sexo, que o “contaram-me” e o “ouvi dizer” ia propagando pela cidade.
Na altura ficou famosa e correu gerações, uma cantiga contendo uns versos brejeiros que envolviam sexualmente um comerciante, o Francisquinho da Padaria com uma outra pessoa. Os que ainda recordam a cantiga e os versos, sabem ao quem me refiro ...
Outra história picaresca teria ocorrido aqui nesses anos 50; quem conheceu a senhora em questão diz que ela negava a veracidade da história. Seja como for, a que circulou era assim: a senhora, à época, trabalhava na fábrica do industrial José V. – um ex-operário que conseguira ascender ao empresariado têxtil - de quem seria também amante, ... com a “tolerância” do marido, porque, enfim, a vida estava má e dali sempre entrava “algum” para a casa.
Num certo dia o nosso Zé V., parou o carro lá à porta a uma hora inusitada. Enquanto subia a escada, a senhora teria dito ao marido: - “Esconde-te que vem aí o senhor Zé!”; o referido não precisou que lhe repetissem a ordem e, como a casa era pequena e não havia outro sítio para se esconder (nas comédias de costumes costuma haver um roupeiro que salva a situação, mas neste caso não havia), meteu-se rapidamente debaixo da cama do casal.
O patrão Zé entra para o quarto e começa logo por dizer à operária, que estava com bastante pressa porque ia dali directamente para Lisboa. – “Passei só para perguntar se precisas que traga alguma coisa para ti?” - Ela responde que não. – “E o teu homem precisará de alguma coisa?" – Ela, hesita, pensa um pouco e diz: - “Só se fossem uns sapatos senhor Zé!...”. O outro pergunta: - “Que número é que ele calça?”. – “É.... (pensa um pouco), 39!”. O marido, debaixo da cama já se está a ver com uns sapatos apertados e não se contém: do seu esconderijo diz: - “Ó minha burra! Não é 39, é 40 !” ....
(PL951)
sábado, 13 de fevereiro de 2010
O Ser ou Não Ser dos Lanifícios
A indústria dos Lanifícios da Covilhã iniciou o seu caminho em direcção à extinção mais ou menos quando o Pelourinho – a designação tradicional do seu centro urbano – deu lugar à moderna Praça do Município; a primeira construção a assinalar essa nova realidade, foi o edifício dos CTT inaugurado no ano de 1950.
O momento económico na Covilhã era então era então de grande dinamismo empresarial. Nos anos 50 a economia libertara-se finalmente das restrições impostas pela II Guerra e vivia-se um surto de criatividade produtiva. Cristian Dior impusera a sua moda designada por “New Look” e isso também significava para a indústria têxtil, um aumento significativo da procura. O “New Look” vinha exigir que metros e metros de tecidos fossem utilizados para confeccionar um vestido segundo a moda. Mary Quant e as mini-saias, felizmente, para a economia têxtil ainda estavam distantes no tempo.
Entretanto tinham surgido no mercado as fibras têxteis artificiais e sintéticas, na forma de filamentos contínuos, ou cortadas a medida conveniente para poderem ser misturadas com as fibras naturais. Os artefactos provenientes destas misturas, perdiam naturalmente algumas das características dos têxteis naturais, mas também acrescentavam outras, particularmente importantes em determinado tipo de produtos têxteis: maior durabilidade e possibilidade de obter fios e tecidos mais finos, bom comportamento mecânico perante as máquinas. Para além disso havia também uma relação custos-benefícios mais favorável em relação aos “têxteis puros” (hoje dir-se-ia ecológicos).
Confrontada com o novo paradigma comercial e estratégico, para a indústria dos lanifícios local tinha chegado o momento de tomar importantes decisões para o seu futuro, quiçá para a sua própria sobrevivência. Ou se mantinha fiel à manufactura da lã e dos seus subprodutos, ou optava por uma solução híbrida, correndo o risco de se descaracterizar ao miscigenar-se progressivamente com as novas matérias primas têxteis. Como nos é próprio, a solução adoptada, depois de muita teorização, foi – nenhuma, deixar correr. Claro que daí e como resultado, começou a sair dos Lanifícios um produto têxtil incaracterístico facilmente produzível em outras partes do mundo.
O momento económico na Covilhã era então era então de grande dinamismo empresarial. Nos anos 50 a economia libertara-se finalmente das restrições impostas pela II Guerra e vivia-se um surto de criatividade produtiva. Cristian Dior impusera a sua moda designada por “New Look” e isso também significava para a indústria têxtil, um aumento significativo da procura. O “New Look” vinha exigir que metros e metros de tecidos fossem utilizados para confeccionar um vestido segundo a moda. Mary Quant e as mini-saias, felizmente, para a economia têxtil ainda estavam distantes no tempo.
Entretanto tinham surgido no mercado as fibras têxteis artificiais e sintéticas, na forma de filamentos contínuos, ou cortadas a medida conveniente para poderem ser misturadas com as fibras naturais. Os artefactos provenientes destas misturas, perdiam naturalmente algumas das características dos têxteis naturais, mas também acrescentavam outras, particularmente importantes em determinado tipo de produtos têxteis: maior durabilidade e possibilidade de obter fios e tecidos mais finos, bom comportamento mecânico perante as máquinas. Para além disso havia também uma relação custos-benefícios mais favorável em relação aos “têxteis puros” (hoje dir-se-ia ecológicos).
Confrontada com o novo paradigma comercial e estratégico, para a indústria dos lanifícios local tinha chegado o momento de tomar importantes decisões para o seu futuro, quiçá para a sua própria sobrevivência. Ou se mantinha fiel à manufactura da lã e dos seus subprodutos, ou optava por uma solução híbrida, correndo o risco de se descaracterizar ao miscigenar-se progressivamente com as novas matérias primas têxteis. Como nos é próprio, a solução adoptada, depois de muita teorização, foi – nenhuma, deixar correr. Claro que daí e como resultado, começou a sair dos Lanifícios um produto têxtil incaracterístico facilmente produzível em outras partes do mundo.
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