Por aqui na Cidade, durante a década de 50, verificaram-se alguns escassos vislumbres do que viria a ser a revolução sexual do pós-guerra nas décadas seguintes. Entre nós, essas coisas, sejam costumes, cultura ou ciência, vem normalmente tarde e de fora para dentro. Como dizia Eça de Queirós: importamos tudo a começar pelas ideias.
Havia e continuou a haver uma moral sexual pública, oficiosa e supostamente conforme com os bons costumes, muito formatada pelas doutrinas da Igreja Católica, que sempre entendeu que sexo e demónio eram sinónimos ou andavam por perto. Paralelamente coexistia uma outra moral privada, mais livre de dogmas, em que cada um fazia aquilo que em consciência achava melhor, e a própria sociedade enquanto tal, tolerava, desde que se mantivesse um mínimo de decência e recato.
Para o exterior, vinham somente os médios ou grandes desvios às normas morais instituídas, quando caíam no domínio público e se constituíam então em escândalos à escala local, quando protagonizados por figuras conhecidas, ou ainda pequenas histórias picarescas, apimentadas com algum sexo, que o “contaram-me” e o “ouvi dizer” ia propagando pela cidade.
Na altura ficou famosa e correu gerações, uma cantiga contendo uns versos brejeiros que envolviam sexualmente um comerciante, o Francisquinho da Padaria com uma outra pessoa. Os que ainda recordam a cantiga e os versos, sabem ao quem me refiro ...
Outra história picaresca teria ocorrido aqui nesses anos 50; quem conheceu a senhora em questão diz que ela negava a veracidade da história. Seja como for, a que circulou era assim: a senhora, à época, trabalhava na fábrica do industrial José V. – um ex-operário que conseguira ascender ao empresariado têxtil - de quem seria também amante, ... com a “tolerância” do marido, porque, enfim, a vida estava má e dali sempre entrava “algum” para a casa.
Num certo dia o nosso Zé V., parou o carro lá à porta a uma hora inusitada. Enquanto subia a escada, a senhora teria dito ao marido: - “Esconde-te que vem aí o senhor Zé!”; o referido não precisou que lhe repetissem a ordem e, como a casa era pequena e não havia outro sítio para se esconder (nas comédias de costumes costuma haver um roupeiro que salva a situação, mas neste caso não havia), meteu-se rapidamente debaixo da cama do casal.
O patrão Zé entra para o quarto e começa logo por dizer à operária, que estava com bastante pressa porque ia dali directamente para Lisboa. – “Passei só para perguntar se precisas que traga alguma coisa para ti?” - Ela responde que não. – “E o teu homem precisará de alguma coisa?" – Ela, hesita, pensa um pouco e diz: - “Só se fossem uns sapatos senhor Zé!...”. O outro pergunta: - “Que número é que ele calça?”. – “É.... (pensa um pouco), 39!”. O marido, debaixo da cama já se está a ver com uns sapatos apertados e não se contém: do seu esconderijo diz: - “Ó minha burra! Não é 39, é 40 !” ....
(PL951)
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
sábado, 13 de fevereiro de 2010
O Ser ou Não Ser dos Lanifícios
A indústria dos Lanifícios da Covilhã iniciou o seu caminho em direcção à extinção mais ou menos quando o Pelourinho – a designação tradicional do seu centro urbano – deu lugar à moderna Praça do Município; a primeira construção a assinalar essa nova realidade, foi o edifício dos CTT inaugurado no ano de 1950.
O momento económico na Covilhã era então era então de grande dinamismo empresarial. Nos anos 50 a economia libertara-se finalmente das restrições impostas pela II Guerra e vivia-se um surto de criatividade produtiva. Cristian Dior impusera a sua moda designada por “New Look” e isso também significava para a indústria têxtil, um aumento significativo da procura. O “New Look” vinha exigir que metros e metros de tecidos fossem utilizados para confeccionar um vestido segundo a moda. Mary Quant e as mini-saias, felizmente, para a economia têxtil ainda estavam distantes no tempo.
Entretanto tinham surgido no mercado as fibras têxteis artificiais e sintéticas, na forma de filamentos contínuos, ou cortadas a medida conveniente para poderem ser misturadas com as fibras naturais. Os artefactos provenientes destas misturas, perdiam naturalmente algumas das características dos têxteis naturais, mas também acrescentavam outras, particularmente importantes em determinado tipo de produtos têxteis: maior durabilidade e possibilidade de obter fios e tecidos mais finos, bom comportamento mecânico perante as máquinas. Para além disso havia também uma relação custos-benefícios mais favorável em relação aos “têxteis puros” (hoje dir-se-ia ecológicos).
Confrontada com o novo paradigma comercial e estratégico, para a indústria dos lanifícios local tinha chegado o momento de tomar importantes decisões para o seu futuro, quiçá para a sua própria sobrevivência. Ou se mantinha fiel à manufactura da lã e dos seus subprodutos, ou optava por uma solução híbrida, correndo o risco de se descaracterizar ao miscigenar-se progressivamente com as novas matérias primas têxteis. Como nos é próprio, a solução adoptada, depois de muita teorização, foi – nenhuma, deixar correr. Claro que daí e como resultado, começou a sair dos Lanifícios um produto têxtil incaracterístico facilmente produzível em outras partes do mundo.
O momento económico na Covilhã era então era então de grande dinamismo empresarial. Nos anos 50 a economia libertara-se finalmente das restrições impostas pela II Guerra e vivia-se um surto de criatividade produtiva. Cristian Dior impusera a sua moda designada por “New Look” e isso também significava para a indústria têxtil, um aumento significativo da procura. O “New Look” vinha exigir que metros e metros de tecidos fossem utilizados para confeccionar um vestido segundo a moda. Mary Quant e as mini-saias, felizmente, para a economia têxtil ainda estavam distantes no tempo.
Entretanto tinham surgido no mercado as fibras têxteis artificiais e sintéticas, na forma de filamentos contínuos, ou cortadas a medida conveniente para poderem ser misturadas com as fibras naturais. Os artefactos provenientes destas misturas, perdiam naturalmente algumas das características dos têxteis naturais, mas também acrescentavam outras, particularmente importantes em determinado tipo de produtos têxteis: maior durabilidade e possibilidade de obter fios e tecidos mais finos, bom comportamento mecânico perante as máquinas. Para além disso havia também uma relação custos-benefícios mais favorável em relação aos “têxteis puros” (hoje dir-se-ia ecológicos).
Confrontada com o novo paradigma comercial e estratégico, para a indústria dos lanifícios local tinha chegado o momento de tomar importantes decisões para o seu futuro, quiçá para a sua própria sobrevivência. Ou se mantinha fiel à manufactura da lã e dos seus subprodutos, ou optava por uma solução híbrida, correndo o risco de se descaracterizar ao miscigenar-se progressivamente com as novas matérias primas têxteis. Como nos é próprio, a solução adoptada, depois de muita teorização, foi – nenhuma, deixar correr. Claro que daí e como resultado, começou a sair dos Lanifícios um produto têxtil incaracterístico facilmente produzível em outras partes do mundo.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Um País Ainda Sem "Trabalhadores"
Na época que cobre esta crónica havia gente que trabalhava, e, podem crer, muito mais do que se trabalha hoje. Só que os operários, lavradores, serralheiros, advogados, artífices, técnicos, militares, donas de casa, professores etc., todos eles se identificavam perante a sociedade como profissionais disto ou daquilo e não genericamente como trabalhadores. A designação “trabalhadores” e “classe trabalhadora”, tem uma génese muito mais política do que laboral. O conceito de trabalhador surge mais do Manifesto Comunista de 1848 do que da Revolução Industrial.
Era em torno dessa questão, que a tertúlia reunida naquela noite de 1955 na farmácia Soares, ali no Largo do Pelourinho, centrava o debate de forma mais ou menos consensual. Eram todos homens de meia-idade, com algum estatuto social no meio e politicamente moderados, ou mesmo de direita. Àquela mesma hora, frequentadores habituais do Café Leitão ali próximo, sentados a uma das mesas habituais, discutia de forma mais acalorada, na prática a mesma questão da tertúlia da Farmácia.
O que originara a simultaneidade na escolha do tema em debate, em lugares distintos e entre pessoas politicamente tão antagónicas? - Uma Lei do Estado Novo acabada de sair, que instituídas formalmente as «Corporações», as quais iriam ter, como órgão de cúpula um ministério próprio, o das Corporações. Em causa, afinal estava uma questão simples mas de grande importância e repercussões: a gestão e controle do mundo do trabalho. Quem o iria fazer em Portugal? O Governo através das suas «corporações» ou o movimento subterrâneo comunista e a sua extensão natural no aparelho sindical?
Para a esquerda reunida no Café Leitão, os mais ligados ao Partido Comunista (na clandestinidade), entendiam que o diploma governamental, vinha em sentido oposto à direcção dos “ventos da história”. Era imperiosa a “unicidade” na acção (uma palavra que voltaria à actualidade política em 1975), das pessoas que trabalhavam em todas e quaisquer artes e ofícios, em torno de uma única personalidade político-laboral: “o Trabalhador”. Esse “trabalhador” seria o precursor do futuro “homem-novo”, agora com consciência de classe, e pronto para a “luta de classes” contra os seus inimigos naturais - a burguesia, os contra-revolucionários, os capitalistas, os fascistas e outros maus da fita, que havia que “esmagar”, para que a Revolução Internacional Proletária triunfasse, na sua rota para a idílica “sociedade sem classe” (... e no seu estágio final, até sem necessidade de moeda): o Comunismo.
A exortação dos marxistas do Café Leitão terminava aqui. Sem poderes de premonição, não poderiam prever o rumo da História e perceber o verdadeiro significado de palavras ainda desconhecidas, como “kulaks”, genocídios e deportações, que marcariam o período histórico do estalinismo até à queda de um simbólico muro em Berlim. Afirmavam sim, que aquela medida do Governo tinha uma incontornável conotação fascista, o que até era verdade, ainda que, acrescento eu, em versão soft e aportuguesada. O corporativismo foi um sistema político originário da Itália Fascista, no qual o poder legislativo é atribuído a corporações de ofícios, representativas de todos os interesses económicos envolvidos na produção, através das quais os cidadãos trabalhadores, devidamente enquadrados e representados, participavam na vida política.
Com isto pretendia-se criar uma “terceira via” no mundo laboral e eliminar a “luta de classes” marxista, juntando no mesmo organismo económico-laboral - patrões, operários e o Estado -, o qual, como entidade neutral, serviria de árbitro e mediador dos conflitos emergentes, maximizando o crescimento económico e a atenuação da conflitualidade entre o mundo do capital e o do trabalho. Era esta a visão partilhada na tertúlia da Farmácia, sintetizada numa das afirmações ali ouvidas: para um país como o nosso, antes «corporações» ainda que políticas, do que «sindicatos» inevitavelmente politizados.
Concordância entre os campos opostos, só se verificava mesmo no regozijo comum, pela prestação que o Sporting local tivera essa época, que terminara agora em 1956, na disputa do Campeonato de Futebol da Primeira Divisão: um honroso 5.º lugar.
(PL955I)
Era em torno dessa questão, que a tertúlia reunida naquela noite de 1955 na farmácia Soares, ali no Largo do Pelourinho, centrava o debate de forma mais ou menos consensual. Eram todos homens de meia-idade, com algum estatuto social no meio e politicamente moderados, ou mesmo de direita. Àquela mesma hora, frequentadores habituais do Café Leitão ali próximo, sentados a uma das mesas habituais, discutia de forma mais acalorada, na prática a mesma questão da tertúlia da Farmácia.
O que originara a simultaneidade na escolha do tema em debate, em lugares distintos e entre pessoas politicamente tão antagónicas? - Uma Lei do Estado Novo acabada de sair, que instituídas formalmente as «Corporações», as quais iriam ter, como órgão de cúpula um ministério próprio, o das Corporações. Em causa, afinal estava uma questão simples mas de grande importância e repercussões: a gestão e controle do mundo do trabalho. Quem o iria fazer em Portugal? O Governo através das suas «corporações» ou o movimento subterrâneo comunista e a sua extensão natural no aparelho sindical?
Para a esquerda reunida no Café Leitão, os mais ligados ao Partido Comunista (na clandestinidade), entendiam que o diploma governamental, vinha em sentido oposto à direcção dos “ventos da história”. Era imperiosa a “unicidade” na acção (uma palavra que voltaria à actualidade política em 1975), das pessoas que trabalhavam em todas e quaisquer artes e ofícios, em torno de uma única personalidade político-laboral: “o Trabalhador”. Esse “trabalhador” seria o precursor do futuro “homem-novo”, agora com consciência de classe, e pronto para a “luta de classes” contra os seus inimigos naturais - a burguesia, os contra-revolucionários, os capitalistas, os fascistas e outros maus da fita, que havia que “esmagar”, para que a Revolução Internacional Proletária triunfasse, na sua rota para a idílica “sociedade sem classe” (... e no seu estágio final, até sem necessidade de moeda): o Comunismo.
A exortação dos marxistas do Café Leitão terminava aqui. Sem poderes de premonição, não poderiam prever o rumo da História e perceber o verdadeiro significado de palavras ainda desconhecidas, como “kulaks”, genocídios e deportações, que marcariam o período histórico do estalinismo até à queda de um simbólico muro em Berlim. Afirmavam sim, que aquela medida do Governo tinha uma incontornável conotação fascista, o que até era verdade, ainda que, acrescento eu, em versão soft e aportuguesada. O corporativismo foi um sistema político originário da Itália Fascista, no qual o poder legislativo é atribuído a corporações de ofícios, representativas de todos os interesses económicos envolvidos na produção, através das quais os cidadãos trabalhadores, devidamente enquadrados e representados, participavam na vida política.
Com isto pretendia-se criar uma “terceira via” no mundo laboral e eliminar a “luta de classes” marxista, juntando no mesmo organismo económico-laboral - patrões, operários e o Estado -, o qual, como entidade neutral, serviria de árbitro e mediador dos conflitos emergentes, maximizando o crescimento económico e a atenuação da conflitualidade entre o mundo do capital e o do trabalho. Era esta a visão partilhada na tertúlia da Farmácia, sintetizada numa das afirmações ali ouvidas: para um país como o nosso, antes «corporações» ainda que políticas, do que «sindicatos» inevitavelmente politizados.
Concordância entre os campos opostos, só se verificava mesmo no regozijo comum, pela prestação que o Sporting local tivera essa época, que terminara agora em 1956, na disputa do Campeonato de Futebol da Primeira Divisão: um honroso 5.º lugar.
(PL955I)
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Adagio para um Coronel Louco
Adagio para um Coronel Louco – I
O som da bofetada não chegou até aos duzentos militares que em formatura na Parada do quartel, estupefactos, a vimos aplicar ao nosso camarada de armas; mas todos, sem excepção, a sentimos como se tivesse sido aplicada na nossa própria cara.
O agredido, - um Cabo miliciano - rubro de surpresa e indignação, baixou-se para apanhar do chão o bivaque militar que lhe tinha caído da cabeça com a pancada, perfilou-se diante do agressor – um Major – disse-lhe qualquer coisa que não conseguimos ouvir, fez a continência militar da praxe e foi ocupar de novo o seu lugar no pelotão.
Tudo isto se passa debaixo do arco principal da Parada do então Batalhão de Caçadores 2, actualmente Universidade da Beira Interior (UBI). O Batalhão de Instrução estava em formatura no local, para cumprir uma formalidade burocrática do exército: “o sorteio”. Este era mais uma das tentativas de aperfeiçoamento do sistema do recrutamento militar, já iniciado no governo de Teófilo Braga em 1911, durante aquele executivo que teve uma longa vida para a época, 328 dias - quase um ano. Só o governo de Afonso Costa, 13 anos mais tarde conseguiria superar esta longevidade e manter-se em S. Bento durante 390 dias. A I República era assim ...
A “formatura” destinava-se a atribuir por sorteio aos recrutas em parada, um papel com um número. Esse número iria serviria, no caso de haver excedentes de militares numa incorporação, ou razões de ordem familiar consideradas imperiosas (terem filhos ou familiares a seu encargo directo, por exemplo), para mais tarde decidir, em igualdade de circunstâncias, quem “passaria à disponibilidade” (iria para casa), imediatamente no fim da escola de recrutas e de efectuado o juramento de bandeira.
Só mais tarde se conhecerem os pormenores por detrás do insólito acontecimento ocorrido sob o arco romano da Parada: em determinado momento, em plena formatura, o cabo miliciano notara que no ombro e muito próximo do pescoço do comandante do pelotão à sua frente, um Aspirante a oficial miliciano, tinha pousado um ameaçador abelhão que a qualquer momento, poderia espetar o seu doloroso ferrão; naturalmente apressara-se a sacudi-lo com a mão.
Lá da frente da formação, o Major observara o gesto e interpretara-o, erradamente, como uma brincadeira e uma quebra de disciplina. Manda um ordenança chamar o militar, supostamente transgressor, à sua presença. Uma vez aí, por razões (psicológicas) que se tentarão explicar adiante, e sem que tivesse ocorrido qualquer troca de palavras entre ambos, dá-lhe a já referida bofetada, sem aparentemente querer saber se o seu acto, feito na presença de “inferiores” (militares menos graduados na gíria militar) do cabo miliciano, para além de tudo o mais, também em si mesmo, constituía uma quebra grave da disciplina militar.
Com uma calma invulgar em alguém que acaba de ser publicamente humilhado e agredido, o Cabo miliciano levantou o bivaque do chão, colocou-o na cabeça, perfilou-se e, em conformidade com as normas militares vigentes, pediu ao seu superior (e agressor). permissão para apresentar uma queixa formal contra ele, ao que o outro, ainda nervoso, anuiu.
Militares de várias patentes, com a experiência dada por muitos anos passados na tropa, ao tomarem conhecimento do ocorrido, foram peremptórios: o Cabo miliciano não tinha a mínima chance de, com a sua queixa, vir a incomodar minimamente o Major e ainda menos, que daí resultasse qualquer punição. – “Vai ser levantado um auto” – diziam - “e aí, basta que o major declare em abstracto que o cabo o desrespeitou por palavras - por exemplo!...”. Continua ...
(PL958)
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Adagio para um Coronel Louco
Adagio para um Coronel Louco – II
Pelo regulamento de disciplina militar, um oficial superior possui “palavra de honra”, significando que, em caso conflito disciplinar, a sua palavra basta e não há oportunidade para contraditório; já o mesmo privilégio não era concedido aos militares de baixa patente, como era o caso.
Porém, contrariando todas as previsões a “queixa” do Cabo miliciano, seguiu o seu caminho e em consequência do “auto” produzido, o Major viu registado no seu currículo militar uma “advertência” e foi coercivamente transferido para outra unidade. Para entendermos este desfecho, vamos ter que conhecer os protagonistas. Vamos ter de situarmo-nos no tempo e no ambiente em torno dos acontecimentos. Comecemos por aqui.
Decorria o mês de Maio de 1958. Humberto Delgado tinha-se apresentado como candidato à Presidência da República. Percorria o país despertando enorme entusiasmo popular. Para trás ficara já o “obviamente demito-o”; as recepções apoteóticas no Porto e na estação de Santa Apolónia quando do seu regresso à capital iriam suceder-se noutros locais. O seu staff de campanha programara uma viagem eleitoral à Covilhã.
O Ministério da Guerra preocupado, dera antecipadamente ordens para a convocação de reservistas e a colocação dos quartéis em prevenção simples. Na tarde do dia em que a caravana do General Delgado ia passar na rua onde se encontra o edifício do então Batalhão, o Comandante deu tardiamente ordem para que fosse encerrada a Porta d’Armas do quartel. Tarde demais porque entretanto, dezenas de soldados – sobretudo entre os reservistas mobilizados – já atravessavam o portão e se colocavam na rua vitoriando a caravana de Delgado. É neste enquadramento temporal que decorre o incidente da bofetada.
Para o Major Castelo Branco de onde partiu a agressão, parecia estar guardado o papel de vilão. Não era bem assim. De pequena estatura, magro e ágil, era uma pessoa extremamente nervosa e impulsiva, mas, num ambiente militar em que nos patamares mais elevados, os maus são em maior número que os bons, ele decididamente não pertencia aos primeiros. Aquele seu acto de histeria nervosa, resultou de um acumular de tensões dentro dele, induzidas pelo seu superior imediato (melhor dito – tirano imediato) que, por ironia, apenas ostentava nas platinas da farda mais um galão que os seus, de Major, mas que o aterrorizava psicologicamente, tal como a vários outros – o Comandante do Batalhão.
O comandante da Batalhão de Caçadores 2 era um tenente-coronel - Peraltinha de seu nome. Personalidade estranhíssima, de cariz marcadamente psicótico. Poucos o conheciam no Batalhão e praticamente ninguém na Covilhã. Um misantropo, solteiro, sem amigos conhecidos, vivia entre o seu gabinete no quartel, o automóvel oficial com motorista que o transportava de um lado para o outro, e um pequeno quarto na Pensão Avenida junto ao Jardim Público, de onde nunca saía nem mesmo quando as festas da cidade decorriam ali mesmo à porta.
Ao que se dizia, passeava para trás e para a frente no seu quarto da Pensão até altas horas da madrugada, como um animal enjaulado. Mantinha com os seus subordinados mais imediatos um relacionamento a rondar o surrealista. Mais do que uma vez foram vistos no seu gabinete, perfilados como soldados rasos, o próprio segundo comandante que era um Major e também o Major Castelo Branco que então comandava a escola de recrutas. A sua agressividade ameaçadora e o desprezo para com aqueles que obrigava a permanecer de pé e humildemente perfilados na frente da sua mesa, eram conhecidos por toda a Unidade Militar. Se alguém duvidasse da sanidade da mente daquele homem, o seu fim trágico, poucos anos depois, viria a confirmá-lo: suicidou-se com a própria arma. Continua ...
Histórias da Pequena Corrupção à Portuguesa
Um amigo, importador de produtos químicos para a indústria textil, pediu-me para o introduzir em algumas empresas de lanifícios junto das quais eu tinha contactos e conhecimentos. Nessa linha, um certo dia dos anos 80 estávamos ele e eu, perante o Mestre João - um homem simples e de rudimentar instrução - mas era quem fazia as compras naquela fiação de fio cardado.
As diversas matérias primas-têxteis, componentes do fio que vai ser produzido, começam por ser dispostas em camadas umas sobre as outras para assegurar uma boa mistura final, e pulverizadas camada a camada, com um lubrificante apropriado, - está a ver-se que o meu amigo importava um desses lubrificantes - que posteriormente facilitará o processo mecânico e reduzirá a indesejada quebra das fibras têxteis durante o processo; a mistura lotada, passa em seguida por uma pequena máquina de tambor rotativo, a partir da qual vai iniciar-se todo um processo que passará pela cardação e posterior fiação da matéria-prima.
A operação de cardação propriamente dita, é realizada por uma bateria de máquinas que accionam cilindros de vários diâmetros, todos eles revestidos com uma tela especial (muito cara) com finas puas de aço – dito “o puado” –, a quem compete desagregar as fibras têxteis da mistura e tanto quanto possível paralelizá-las, apresentando-as na sua fase final, já sob a forma de rolos de mechas devidamente calibradas e prontos para alimentarem as máquinas de fiação.
Para lubrificar as matérias-primas a cardar, Mestre João utilizava um produto tradicional - a “oleína” – uma substância orgânica e gorda proveniente de óleos vegetais. O meu amigo esforçou-se por convencê-lo a mudar para os novos “óleos sintéticos”, que tinha sobre a oleína vantagens e vantagens, ...um nunca mais acabar. Ao sairmos, o meu amigo vinha com uma encomenda de um tambor de 200 litros do seu fantástico “óleo sintético” que iria, dali em diante substituir o lubrificante ali usado.
Semanas mais tarde, Mestre João telefona-me aparentemente em pânico: – «Uma desgraça! Nem imagina!..» – «O lubrificante que F.. (o meu amigo) vendeu para aqui, estragou completamente o “puado” das cardas, que vai ter que ser substituído! – É um prejuízo enoooorme!!...»
Fiquei preocupado. Tinha a noção de quanto custava um revestimento do puado de cada “carda”. Telefonei a F.. alarmado: – «E agora!?». Para minha estranheza, o seu comentário foi calmo – «Ah! Já sei o que aconteceu! Desculpa, esqueci-me na altura!...» - A calma dele deixava-me completamente confuso. – «Tem paciência...» – diz-me ele – «Vai lá falar com o Mestre João e diz-lhe que esteja descansado porque “aquela parte” do costume, é para ele como já se sabe. É que só por esquecimento não lhe falei aí nisso. Quando passar de novo já lhe levo o dinheiro!.»
Fui, algo receoso do acolhimento que me esperava. Falei com o Mestre João, expliquei-lhe. Aceitou tudo sem problema de maior. Quando me preparava para sair, acompanhou-me à porta e disse: - «Olhe, para compensar o seu transtorno de ter que cá vir, diga a F que me pode mandar outro tambor do produto !...» - Céus, como aprendi! Afinal todo aquele problema, tinha uma solução simples: Luvas!. “Puado” a auto-regenerar-se assim tão instantaneamente, nem eu nem ninguém viu certamente mais.
(PL982I)
As diversas matérias primas-têxteis, componentes do fio que vai ser produzido, começam por ser dispostas em camadas umas sobre as outras para assegurar uma boa mistura final, e pulverizadas camada a camada, com um lubrificante apropriado, - está a ver-se que o meu amigo importava um desses lubrificantes - que posteriormente facilitará o processo mecânico e reduzirá a indesejada quebra das fibras têxteis durante o processo; a mistura lotada, passa em seguida por uma pequena máquina de tambor rotativo, a partir da qual vai iniciar-se todo um processo que passará pela cardação e posterior fiação da matéria-prima.
A operação de cardação propriamente dita, é realizada por uma bateria de máquinas que accionam cilindros de vários diâmetros, todos eles revestidos com uma tela especial (muito cara) com finas puas de aço – dito “o puado” –, a quem compete desagregar as fibras têxteis da mistura e tanto quanto possível paralelizá-las, apresentando-as na sua fase final, já sob a forma de rolos de mechas devidamente calibradas e prontos para alimentarem as máquinas de fiação.
Para lubrificar as matérias-primas a cardar, Mestre João utilizava um produto tradicional - a “oleína” – uma substância orgânica e gorda proveniente de óleos vegetais. O meu amigo esforçou-se por convencê-lo a mudar para os novos “óleos sintéticos”, que tinha sobre a oleína vantagens e vantagens, ...um nunca mais acabar. Ao sairmos, o meu amigo vinha com uma encomenda de um tambor de 200 litros do seu fantástico “óleo sintético” que iria, dali em diante substituir o lubrificante ali usado.
Semanas mais tarde, Mestre João telefona-me aparentemente em pânico: – «Uma desgraça! Nem imagina!..» – «O lubrificante que F.. (o meu amigo) vendeu para aqui, estragou completamente o “puado” das cardas, que vai ter que ser substituído! – É um prejuízo enoooorme!!...»
Fiquei preocupado. Tinha a noção de quanto custava um revestimento do puado de cada “carda”. Telefonei a F.. alarmado: – «E agora!?». Para minha estranheza, o seu comentário foi calmo – «Ah! Já sei o que aconteceu! Desculpa, esqueci-me na altura!...» - A calma dele deixava-me completamente confuso. – «Tem paciência...» – diz-me ele – «Vai lá falar com o Mestre João e diz-lhe que esteja descansado porque “aquela parte” do costume, é para ele como já se sabe. É que só por esquecimento não lhe falei aí nisso. Quando passar de novo já lhe levo o dinheiro!.»
Fui, algo receoso do acolhimento que me esperava. Falei com o Mestre João, expliquei-lhe. Aceitou tudo sem problema de maior. Quando me preparava para sair, acompanhou-me à porta e disse: - «Olhe, para compensar o seu transtorno de ter que cá vir, diga a F que me pode mandar outro tambor do produto !...» - Céus, como aprendi! Afinal todo aquele problema, tinha uma solução simples: Luvas!. “Puado” a auto-regenerar-se assim tão instantaneamente, nem eu nem ninguém viu certamente mais.
(PL982I)
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Adagio para um Coronel Louco
Adagio para um Coronel Louco – III
Analistas de dentro do Batalhão viram na “queixa” do Cabo contra o Major, uma oportunidade que caiu ao colo do Comandante para se descartar do Major que odiava (afinal, ele odiava toda a gente ...).
... continuado
Deu luz verde à abertura de um Inquérito e, como relator nomeou um oficial que também não apreciava particularmente o Major. Sem a conivência do Comandante do Batalhão, o assunto não teria tido consequências...
O Cabo miliciano Mateus Ramos – esbofeteado -, era um homem inteligente com uma cultura acima da média, grande leitor de livros; recordo especialmente a sua admiração por Florbela Espanca (que gostava de ler em voz alta) e Pitigrili, um autor de sucesso na altura; gostava de atletismo e praticava-o sem intenções competitivas. Nesta modalidade, impressionava-me a quantidade de recordes desportivos que ele memorizava. Da sua boca ouvi pela primeira vez referência a um atleta do Sporting, chamado Manuel Faria – o primeiro vencedor português da corrida de S. Silvestre em S. Paulo Brasil - que, contava ele, andava a trabalhar nas obras do estádio do clube e, enquanto os atletas corriam no campo, ele com as suas botas de trolha, procurava acompanhá-los fazendo o percurso pelo exterior, até ao momento em que o Professor Moniz Pereira o chamou para treinar sob a sua orientação técnica.
O Aspirante a oficial e comandante do pelotão, a quem o inoportuno insecto se preparava para picar. também não era um vulgar militar. Chamava-se Filipe Rosário e viria a ser conhecido no mundo do teatro e da TV como o actor “Filipe Ferrer”. Figura ímpar em inúmeras peças de teatro e, ultimamente também como intérprete de telenovelas. Na altura e enquanto pessoa, era um daqueles raros seres a quem só se conhecem amigos, começando por colegas e subordinados no Batalhão de Caçadores 2, mas também na própria Cidade, onde acolhido com simpatia pela sua forma descontraída de estar na vida e ainda por ser o grande dinamizador da actividade teatral local então emergente.
Vários dos intérpretes desta ocorrência - verdadeira mostra do que era o ambiente humano dentro dos quartéis, três anos antes da eclosão das guerras independentistas em África – já não se encontra infelizmente entre nós. Refiro-os pelo seus autênticos nomes, como homenagem à sua memória e também como contributo para a História dos que nunca entram na História.
(PL958I)
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