sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Sobre Caveiras de Burro e de Imortais que ... Morrem!


Naquele Fevereiro de 1939 um frémito de emoção perpassava as páginas do jornal católico Notícias da Covilhã, bem evidente nos seus títulos de caixa alta: 
“Faleceu o papa Pio XI.”. 

Compreende-se. Já podia deixar algo confusos, alguns leitores sem capacidade para lerem o sentido figurado das afirmações, outras peças jornalísticas que vieram a ser escritas sobre assunto do momento na comunidade católica. Uma delas,  publicada na edição seguinte do semanário, era encimada por um título onde se lia “Pio XI Pontífice Imortal”.  Entende-se a intenção subjacente à afirmação, mas – o português é muito ingrato como diria o humorista Herman décadas depois – é suposto que se alguém é verdadeiramente imortal, não morre. Mas vamos adiante.

Mário Quintela, um homem notável que, não sendo natural da Covilhã, aqui viveu uma grande parte da sua vida, deixando o nome ligado a várias realizações na cidade – poucas, e disso ele queixava-se –, era o que hoje se poderia chamar um “opinion maker” local. Escrevia regularmente no Notícias da Covilhã, de que chegou a ser Director. Numa das suas crónicas da época,  entendeu detalhar a origem de uma lenda que corria, na cidade: Haveria – diziam os mais velhos - enterrada algures na Praça do Pelourinho, a caveira de um burro que possuía o maléfico poder de impedir todo o progresso na Covilhã.

A lenda, segundo Mário Quintela, viria do tempo das Invasões francesas. Num certo dia, um coronel do exército de Junot entrara na Covilhã com o seu destacamento militar. Vinham cansados, estropiados e o coronel ao passar pelo vila do Paul, teria ali “requisitado” à força um burro – já não em muito bom estado de saúde – para o conduzir até à Covilhã. Ao transpor o arco do Pelourinho à frente das suas tropas, o burro foi-se a baixo, pregando com os costados do coronel na calçada, causando-lhe vários ferimentos e até a fractura de uma perna.  O coronel ficou tão furioso com a humilhação, que evocou os seus deuses para que amaldiçoassem para sempre a terra que fizera a sua desgraça, enquanto permanecesse nela a caveira do burro que, logo ali deu ordens para que fosse sepultado em local secreto.  

A caveira nunca foi encontrada e o progresso da Covilhã, foi algum certamente, mas talvez não tenha sido o que podia ser, porque, algures, a caveira do burro, está a cumprir a maldição …

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

"The Small is Beatiful"? Quando a Covilhã disse "NÃO!


Quando as crises começaram a assediar os Lanifícios, que na época já era um sector difuso e mal caracterizado, com o desemprego e as falências a sucederem-se, o diagnóstico dos sábios locais foi uma vez mais uma sucessão de disparates.

Os Lanifícios tinham, diziam eles, sobretudo um défice de dimensão crítica, numa economia de escala.  A solução passava por aumentar a dimensão crítica das empresas existentes através de fusões, concentrações etc. Produção, era a palavra-chave para o sucesso! Crescimento, produtividade, gestão por objectivos já! - “The Big is Beatiful”. 

É com um sorriso que se recordam as pequenas fábricas têxteis com os arcaicos teares de lançadeira que trabalhavam a cadências da ordem das 90 passagens (de lançadeira) por minuto mas que, numa obsessão pela produtividade, e num “taylorismo” tardio, gastaram horas e esforço. para em harmonia com as novas modas industriais, colocaram no imediato os velhos teares aos pares e vis-a-vis para – idealmente, o que raramente acontecia – um só operário trabalhar com as duas máquinas.. Eureka! 

O adversário económico, que punha em risco a continuidade dos Lanifícios diziam, chamava-se Terceiro Mundo e os seus salários baixos. A ninguém ocorreu esta verdade comezinha: a têxtil na generalidade é uma indústria de mão de obra intensiva apropriada para o arranque económico de países atrasados ou em via de desenvolvimento. Mas a indústria de Lanifícios clássica e sobretudo a portuguesa, não é dependente do preço da mão-de-obra, mas sim da qualidade dessa mão de obra. Cito um autor muito recente: 

«Na indústria de lanifícios, ao contrário do que acontece com a de algodão, a concorrência desenvolve-se sobretudo entre países industrializados. A especificidade do produto final, normalmente fabricado em pequenas séries, com incorporação de design e frequentes adaptações à moda e ao seu preço, impede que se destine a um produto massificado. Por outro lado a necessidade de mão-de-obra qualificada e experiente, não facilita a relocalização da produção para países que apenas têm para oferecer baixos de mão-de-obra. A União Europeia continua, assim, a ser o principal produtor de lanifícios, destacando-se entre os países membros, a Itália, a Alemanha e a França, que têm igualmente um papel relevante na produção mundial (in A Geografia da Indústria de Lanifícios na União Europeia – Iva M. Pires)»

A indústria de Lanifícios seguiu pelo caminho errado?  Sim e não. Para a economia regional e para os milhares de trabalhadores que foram perdendo os seus postos de trabalho, pouco interessa saber se hoje se produzem mais metros do que nos tempos em que havia pleno emprego nos Lanifícios, a resposta é óbvia. Para os que com sabedoria e calculismo apostaram no erro e na ignorância dos seus concorrentes, assistindo à sua eliminação, até ficarem finalmente numa posições hegemonia no mercado dos lanifícios, o caminho foi o certamente o melhor. Os monopólios tem má imagem política, mas trazem imensas vantagens a quem finalmente os detém.

domingo, 14 de novembro de 2010

Coimbra é uma lição ....

Naquele ano de 1947 pode dizer-se que ao longo de várias noites meia Covilhã passou pela Praça do Pelourinho e subiu as escadas de acesso ao Cine-Teatro para ver um dos filmes portugueses com mais sucesso de sempre: "Capas Negras". 
A película de Armando de Miranda, um realizador já com alguns êxitos na sua carreira, tinha um argumento centrado no ambiente da vida dos estudantes da Universidade de Coimbra, dos seus amores e desamores com as “tricanas” –  raparigas do povo da cidade coimbrã. Era também uma homenagem aos dois grandes estilos de fado português: o de Coimbra e o de Lisboa.

O grande sucesso do filme – estivera seis meses em cartaz quando da sua estreia no cinema Condes em Lisboa e fora visto por cerca de 200.000 pessoas  - vinha dos seus protagonistas principais, Amália Rodrigues e Alberto Ribeiro, dois cantores  de sucesso, que interpretavam, para além dos seus papéis no filme - Amália fazendo a Maria de Lisboa e Alberto Ribeiro o estudante de Direito dr. José Duarte -, mas sobretudo cantando as belíssimas canções do compositor Raul Ferrão que constituíam a banda sonora. Uma dessas músicas, “Coimbra”, viria a ser o maior êxito de sempre da música portuguesa até ao presente, com interpretações e arranjos de quase todos os grandes artista e orquestras internacionais, rebaptizada de “Abril em Portugal".

O filme estreou comercialmente no cinema Condes, Maio de 1947; só em Lisboa esteve 6 meses em cartaz, com 350 exibições e cerca de 200 mil espectadores, no que foi um dos maiores êxitos de bilheteira de sempre no cinema português. Em papéis complementares eram protagonistas de Capas Negras, nome conhecidos da época (e alguns de hoje) com Artur Agostinho, Vasco Morgado, Barroso Lopes, Humberto Madeira etc.

De volta à actualidade desse tempo, a situação no país e na Covilhã, continuava muito difícil, marcada pelo período do pós guerra. Persistia o racionamento alimentar.  Cada pessoa dispunha de uma senha de racionamento mensal com a qual podia adquirir  800 gr. de açúcar,  350 gr de arroz; 250 gr. de sabão, 1 dl. de azeite. 

Como nem só de alimentos vive a humanidade, a Drogaria Pedroso publicita entretanto o seu “caspicida Star”, à base de iodo, rum e quina, que custa 60$00 o litro;  quem quisesse comprar ou vender um “fato usado” podia procurar no “Adelo Espanhol “, «que fica por detrás da loja do Leão e antes da taberna do Benito», como se lia no anúncio.
 
Uma vez em Lisboa, não podia deixar de se notar a novidade. Acabados de chegar da Inglaterra, percorriam, agora a cidade os novos autocarros de dois pisos.  Na Covilhã começava a falar-se na hipótese de passar a haver também transportes públicos urbanos na cidade; diziam os entendidos, que a solução para aqui seriam os “troleybuzes”. Estes nunca chegaram.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O Distrito da Covilhã

As pessoas que passavam pelo Praça do Pelourinho a caminho dos seus destinos, estavam mais preocupadas com as consequências que a Segunda Guerra Mundial  tinha nas suas vidas diárias – inflação, falta de géneros existenciais, racionamento e mercado negro - do que com os desenvolvimentos que ocorriam na Frente 

Aquele era o quarto ano da Guerra. O último acto iria decorrer sobre o solo japonês, em princípios de Agosto. Antes, como no teatro de revista, faltava ainda a apoteose final. Esta consistiu em matar as últimas 250.000 vítimas da Guerra.. Os Estados Unidos possuíam agora a bomba atómica e quiseram mostrar ao Japão e ao mundo, quão grande era agora o seu poderio militar. Escolheram para alvo duas cidades japonesas. Hiroxima e Nagasaki, cidades desarmadas sem guarnição militar defensiva logo, com o perfil adequado para sobre elas serem lançadas, sem risco, as duas únicas bombas atómicas utilizadas durante o conflito. Este sim, o único verdadeiro holocausto desta guerra.

A auto justificação dos autores do maior massacre da história em escassas horas, foi a de “apressar a rendição do Japão”. A história, para além de ligar indelevelmente a esta chacina bárbara o nome do seu responsável máximo – o vice-presidente dos USA, Henry Truman, um ex-empregado de retrosaria numa cidadezinha do Missouri , que tinha chegado à chefia do Estado devido à morte inesperada, em 1945, do Presidente Roosevelt -  veio demonstrar que o objectivo era mais vasto.  Pressentia-se que um dos aliados de então – a União Soviética - já se configurava como um adversário no período do pós-guerra que viria a denominar-se, “guerra-fria. O bombardeamento atómico foi sobretudo uma manobra estratégica de aviso futuro aos soviéticos.

É um tempo de contrastes. De desalentos, mas também de dinamismo e oportunidades. Devido à escassez de combustíveis, os Correios resolvem reduzir o peso das encomendas postais para o máximo de 2 kg; alguém, coloca um anúncio no jornal local dando a saber que procura uma camioneta que vá a Lisboa em serviço de transporte, para lhe levar uma mobília; o notável covilhanense que foi Vitorino Bonina abre, de sociedade com um familiar e um capital de 40 contos, a Perfumaria Bonina, um espaço onde para além de produtos de cosmética, se discutia vivamente a política local. Já então a grande luta de Vitorino Bonina nos seus escritos públicos era a constituição do Distrito da Covilhã; o editor discográfico de Amália espevita o mercado dos fonogramas de vinil lançando os discos “Ai Mouraria” e “Maria da Cruz;. Há açambarcamentos, há mercado negro, mas também há um sentimento de que está um tempo novo para vir e novas oportunidades.

A Covilhã tinha agora um novo presidente da Câmara, que substituía o dr. Luís Vítor Tavares Batista, um cidadão muito respeitado, que deixou para sempre o seu nome ligado a grandes obras de fomento na cidade e no concelho, …e a algumas histórias pitorescas. Muitos anos mais tarde, no momento em que era distinguido com uma alta condecoração da cidade da Covilhã, um dos seus filhos, o escritor Alçada Batista, recordava uma dessa histórias contada pelo pai: havia, numa altura qualquer, uma reunião de municípios na Figueira da Foz e o Presidente pediu a um vereador e lojista da Covilhã, que fosse lá em representação da Câmara. Ao regressar, e em resposta à pergunta do Presidente sobre como tinha decorrido a reunião, o lojista fez uma cara de desagrado e disse: - “Olhe Sr. Presidente, «aquilo» – tirando eu – era tudo uma choldra!”

O presidente escolhido para dirigir o município era agora o médico dr. Carlos Coelho. Também ele um “gentleman”, como um percurso clínico muito ligado à medicina pulmonar, e director do Sanatório das Penhas da Saúde, se não erro nas datas.  
Curiosamente nesse tempo, as populações não viam estes dirigentes como “políticos” no sentido actual da palavra, mas antes como pessoas com capacidade para desempenhar este género de cargos públicos, ou dizendo de outro modo, como as elites naturais do burgo, independentemente de serem pessoas da confiança política do governo.

Talvez também convenha acrescentar que a designação de “político” não tinha então a conotação pejorativa do nossos dias, desde a instauração da partidocracia como sistema constitucional democrático, e os inúmeros desvios que dentro dos partidos políticos lhes foram imprimindo imensos oportunistas e fura-vidas em busca de ascensão social –designados genericamente por “boys” e “apparatchiks” – contra o que alertava um político americano ao dizer durante a campanha eleitoral: “no jobs for the boys” (não vai haver emprego para os rapazes … do partido).

Uma última curiosidade: esta frase é geralmente aplicada de forma  pervertida, dando-lhe exactamente significado contrário ao que pretende expressar, ao expurgá-la da negativa “no”. Os partidos são geralmente acusados de, uma vez no poder, originarem um corrida das suas clientelas políticas aos aos empregos do Estado (o que até é verdade), mas contrariando a ideia que se encontra na génese da frase.

domingo, 7 de novembro de 2010

Uma guerra ainda longinqua...


Nós por cá tudo bem. Pela Praça do Pelourinho continuavam a passar as pessoas do costume. Um pouco por toda a cidade as pessoas, rotineiramente  conversavam sobre os mais diversos assuntos de actualidade local e nacional. Nada parecia indiciar, nos princípios naquele ano de 1939, alguma preocupação especial nas pessoas, em relação a uma tensão internacional latente que se ia materializando em muitos pontos da Europa.

Na sala de leitura do Ginásio da Covilhã, comentava-se uma local do Século onde a par das sazonais notícias de Inverno sobre os malefícios que a gripe estava a causar em muitos locais, podia ler-se que o mal afligia também a Rússia onde a imperatriz Catarina II teria escrito a um seu familiar no estrangeiro, “todo o meu império está a espirrar!”; durante uma epidemia de gripe, o rei Afonso XIII de Espanha foi a primeira pessoa atingida, razão porque a doença foi designada com o nome de “gripe espanhola”, variante da doença que viria a ser tragicamente conhecida, sobretudo sob o nome de “pneumónica”.

A imprensa da cidade por sua vez dava destaque à inauguração das instalações da Comissão Municipal de Turismo, em plena Praça do Pelourinho no prédio que faz esquina com a Rua Direita actualmente comendador Campos Mello. Cerimónia importante que contou com a presença do Governador Civil António Pinto, da Câmara representada pelo Dr. Luís Tavares Batista e Alexandre Espiga Júnior; o tenente José Amaro chefe da Polícia, foi também um dos convidados que esteve presente. À Comissão propriamente dita presidia o Dr. José Ranito Baltazar que, na cerimónia  se fazia acompanhar por outros membros: Alfredo Santos Marques e o Prof. António Esteves Lopes.

António Nobre, foi um homem notável que se estabeleceu na Covilhã. Para além de ser na época o fotógrafo mais importantes da cidade  (onde parará o espólio fotográfico deste artista?), a sua cultura musical marcou a vida artística da época em que viveu entre nós. Foi regente do Orfeão da Covilhã, a sua esposa D. Laura Nobre era uma pianista credenciada pelo Conservatório de Música do Porto e uma das filhas, fez estudos como cantora lírica. Na época para que se faz o enfoque, António Nobre levava a cabo mais uma das suas realizações artísticas: a 7.ª edição do  Concurso de Arte Fotográfica.   
nas instalações do Grémio do Comércio. Concorrem 33 expositores com cerca de 200 fotografias. António Nobre, pela animação cultural que transmitiu à Covilhã, merecia também ter o nome ligado à sua toponímia. Não está. Mas está a Catarina Eufémia e outros …

Os polícias em regra não têm grande simpatia entre as populações. Mais ainda naqueles tempos, em que a instrução exigida aos agentes era muito rudimentar e o seu recrutamento feito sobretudo nos meios rústicos pobres. O Intendente Pina Manique, o polícia supremo do Marquês de Pombal, também não era uma figura muito querida em Lisboa e no país; entretanto deixou atrás de si uma obra notável que ainda hoje está bem à vista. Quem mandava na Polícia da Covilhã, era então o tenente Amaro. Estimado por muitos, detestado por outros, o seu saldo de popularidade era francamente positivo. O Pelourinho assistiu à imponente manifestação social que constituiu o seu funeral.

O tenente Amaro entre outras virtudes, tinha a de patrocinar entusiasticamente a construção da Colónia Infantil da Montanha. As muitas contribuições voluntárias que iam surgindo – lê-se aqui na imprensa local que «Lopes & Podão» enviam 10 mantas e o Sindicato dos Operários 50$00» - eram enviados ao Comandante da Polícia. Outras contribuições para a construção da colónia de férias para os filhos dos trabalhadores têxteis, não eram assim tão voluntárias. Por exemplo: duas vizinhas engalfinhavam-se, insultavam-se e provocavam escândalo público. A polícia intervinha e levava-as para a esquadra. O tenente Amaro, perante a diminuta dimensão do caso entendia geralmente não dever sobrecarregar os tribunais com mais um processo: Perguntava-lhes: - Querem fazer as pazes, voltar para casa e prometerem-me que não voltam a fazer escândalo público? Se a resposta era “sim”, a penalização para elas determinada pelo tenente Amaro provavelmente seria uma contribuição de 5 escudos para a Colónia Infantil da Montanha.

Enquanto isso, algures na Europa estavam a criar-se as condições que iriam levar a um conflito bélico que mobilizaria mais de 100 milhões de militares dos quais cerca de 70 milhões viriam a morrer.  Era como se ouvisse ao longe os tambores a rufar …

sexta-feira, 12 de março de 2010

Vicente Parte Para o Exílio

Quase toda a gente que passava ou parava na zona envolvente à Praça do Pelourinho, conhecia o Vicente. Era uma figura popular, embora não fosse propriamente e em rigor, um habitante da cidade. O “Vicente” era um corvo. Não se sabia muito bem quando, o animal aparecera por ali e fizera poiso num espaço algures na Rua Comendador Veiga, exactamente nas traseiras do mais importante clube desportivo da Cidade. Alguém, que simpatizara com o animal improvisara-lhe por ali um poleiro, junto do qual o bicho sempre encontrava água e algum alimento. Era a sua casa.

As pessoas foram-se habituando aos gritos estridentes do corvo e ele lá fazia a sua vida voando livremente sobre os céus da cidade. Isto durou anos. Um dia, há sempre um dia como diz a canção, o Vicente meteu-se numa encrenca. A natureza que o criou, esquecera-se de o instruir sobre a existência de uma instituição fundamental da sociedade, a que todos os seres, - incluindo os corvos -, têm de obedecer para conviverem com os humanos: respeitar a propriedade individual. Isto, independentemente do que sobre o assunto, dissesse e pensasse Proudhon ao escrever o livro “Que é a Propriedade?” que, naturalmente o Vicente não pudera ler, e poucos conheciam até a existência.

Quem não quis mesmo saber dessas teorias para coisa alguma foi o cidadão Manuel Paulo Rato Júnior, que sem mais aquelas, apresentou formalmente uma queixa na Polícia contra o Vicente, acusando-o de lhe ter roubado “uma escova do limpa pára-brisas” do seu automóvel. Ninguém na cidade, ao conhecer-se o facto, encontrou explicação para a razão de o Vicente se interessar pelas escovas de pára-brisas do senhor Rato Júnior. Mas a queixa estava feita e havia que tomar providências, até porque, segundo o chefe da Polícia, já havia outras queixas de actuações do Vicente, que demonstravam bem o seu total desprezo pela propriedade alheia. A condenação do corvo foi, tal como a dos atenienses – o ostracismo. Por decisão do referido chefe da polícia da cidade, o Vicente foi levado para longe. Foi conduzido até à nascente do Zêzere na Serra da Estrela. Não há notícias da forma como reagiu à sua condição de exilado ou, se ainda hoje, quem o saberá, faz voos solitários, naquela sua obsessão pela busca de escovas de limpa pára-brisas.

Enquanto o Vicente caminhava para o exílio, noutra zona do mundo – o Quénia -, então uma possessão de Inglaterra, aí sim, a violência era a sério. Tinha começado a insurreição dos Mau-Mau que se veio a saldar, quando da sua extinção. sete anos após, por 13 mil mortes, das quais cerca de 1600 tiveram origem em enforcamentos. Eram os primeiros ventos da violência que iria varrer a África. Nesse dia, o jornal “O Século” que começou a ser distribuído na cidade cerca das 16 horas, tinha como tema de capa a reunião em "Ciudad" Rodrigo de Salazar e Franco. Na orelha direita do cabeçalho do jornal que João Pereira da Rosa dirigia, estava uma data: 1952.

terça-feira, 2 de março de 2010

Fujam! Vem aí o Teófilo!

Vem aí o Teófilo. Fujam!...

Palavras com «êxodo da população» e «refugiados», não é habitual serem referidas quando se fala na História da Covilhã. Mas, ainda que em escala mal definida, essas coisas aconteceram por aqui e o Pelourinho é, uma vez mais, testemunha desse tempo conturbado.

Basta que apontemos o ponteiro do tempo e da memória para o ano de 1919 do século XX. Em Janeiro, com a dramaticidade de um verdadeiro «salve-se-quem-puder», uma palavra de ordem foi passando na população de boca em boca: - “Vêm aí o Teófilo. Fujam!”. Este episódio só o conheço devido a tradição oral que o trouxe até mim. Diversas vezes ouvi pessoas mais velhas referirem-se ao incidente, relatando que, - “...então muita gente abandonou as suas casas, de onde retirou apressadamente roupas, víveres e até imagens de santos, para se ir refugiar algures nos arredores e na floresta da encosta da Serra”.

O episódio tem um suporte histórico. É factual que em 10 de Janeiro de 1919 ocorreu uma «revolta republicana» na Covilhã e em outras cidades do país. Para forçar a rendição dos revoltosos, que ocorreria em 15 de Janeiro, veio ocupar militarmente a cidade uma coluna militar – ficou conhecida como a «coluna negra» - comandada pelo então tenente Teófilo Duarte.

Este era apoiante de Sidónio e curiosamente tinha estudado neste Distrito, no Colégio de São Fiel, próximo da Covilhã, um colégio dos jesuítas. Após a morte de Sidónio Pais, foi alto-comissário no distrito de Castelo Branco, tendo-se revoltado contra o governo de José Relvas. Para se entender algo que parece insólito – terem eclodido na Covilhã e em outros pontos do país «revoltas republicanas» - quando o República era o regime oficial do país desde 1910, terá que aprofundar-se um pouco o ambiente político e social que então se vivia em Portugal.

Sidónio Pais, justamente apelidado de Presidente-Rei, tinha «reinventado» a República e a Constituição de 1911 por forma a criar uma figura política, então ainda não conhecida no Portugal republicano: o presidencialismo. Fora assassinado em Lisboa um mês antes e o rasto político que deixara no país estava longe de se extinguir. Remotamente, as suas ideias para Portugal iriam ter continuidade no surgimento do Estado Novo após a revolução de 1926.

Para se compreender o que foi o consulado de Sidónio Pais – tão idolatrado pelo povo humilde e a expectativa benévola da União Operária Nacional, quanto odiado pelos republicanos mais radicais e pela sempre poderosa Maçonaria – bastará dar um pequeno exemplo: o Governo de Sidónio não tinha ministros, apenas secretários de Estado, ignorando completamente o Congresso dos Deputados que, por sua vez, o hostilizava abertamente.

O Congresso dos Deputados, aquele lugar onde seria suposto serem feitas serenamente e com competência as leis que iriam reger a República, era – infelizmente ainda é, muitas vezes - um local onde se fazia tudo por exibir o lado mais negativo do parlamentarismo – onde se trocavam insultos e acusações pessoais e políticas entre os congressistas, quando não bengaladas e desafios para duelos.

Interpretando tudo isso Sidónio entendeu que, no interesse superior do país, deveria ignorar por completo o Congresso e governar mesmo quando em evidente ruptura com a Constituição de 1911.
Noutro movimento inconstitucional, a 11 de Março de 1918 por decreto, estabeleceu o sufrágio directo e universal para a eleição do Presidente da República, subtraindo-se à necessidade de legitimação no Congresso e enveredando por uma via claramente plebiscitária. Sidónio Pais governava através de decretos, por vezes ditatoriais.

Por tudo isto, dizia-se que havia uma “República Velha”, a que assentava nos cânones da Constituição de 1911 e uma “República Nova”, a sua.
Seria assassinado uma mês antes de ocorrerem os acontecimentos relatados na Covilhã, onde eclodira uma revolta de partidários da República Velha. Todo esse encadear de acontecimentos iriam enquadrar-se naquilo que ficou conhecido por Monarquia do Norte, entre Janeiro e Fevereiro que comentará num outro texto.

Realmente Portugal teve nesse ano uma experiência radical de regionalização: Durante cerca de dois meses o país viveu a experiência política de ter duas regiões demarcadas até ao limite e em cada uma delas, regimes diferentes: uma República e uma Monarquia. Quando hoje se propõe dividir o nosso pequeno país em micro reinos da burocracia, para dar emprego a políticos desocupados que levarão atrás de si pequenos batalhões de funcionários inúteis e dispensáveis que o Orçamento do Estado terá de pagar, devíamos reflectir no país historicamente somos.