terça-feira, 12 de abril de 2011

Revisitando Abril nos Meus Retratos a Sépia

Quando ao meio da manhã daquela quinta-feira de Abril o meu cunhado parou frente ao pequeno escritório, em segunda fila, o seu reluzente Wolkswagem Carocha 1500 e entrou, pressenti logo que andava novidade no ar.
– Ouviste as notícias de hoje?
– Não!
– Então liga o rádio e procura saber, porque houve esta madrugada uma revolução em Lisboa. Não se fala de outra coisa…

Foi assim o meu primeiro contacto com os acontecimentos militares de 1974. Com o decorrer do dia tentei acompanhar o evoluir do movimento militar. Inicialmente não foi fácil. De imediato, na rádio e na TV só se ouviam figuras envolvidas com o movimento: militares, políticos e gente que aparentando ser do povo a breve trecho se percebeu pelo discurso, serem militantes do Partido Comunista na clandestinidade ou de movimentos radicais de esquerda.

Do outro lado, da parte supostamente vencida neste confronto, não se ouvia qualquer voz; quer porque não estivessem suficientemente informados da situação para emitir qualquer tipo de opinião, quer porque, mais provavelmente, ninguém estava interessado em ouvir o que tinham para dizer e menos ainda, em lhes estender um microfone ou os focar perante uma câmara de televisão.  Ouviam-se figuras barbudas,  civis e militares, até aí totalmente desconhecidas declamar uns quantos lugares-comuns revolucionários e libertários e pouco depois, outras personagens dizerem outras coisas, quando não o seu contrário. Subitamente pareceu ter descido sobre Portugal um manto ideológico vermelho. Agora toda a gente era (e pretendia fazer passar a ideia que toda a vida o fora) comunista, marxista, leninista, estalinista, maoísta ou anarquista. Na frente deste desprezível vira-casaquismo nacional, alinhavam-se, com raríssimas excepções, a comunicação social de massas e os seus trabalhadores.

Era uma confusão, mas algo começava a tomar forma: realmente ocorrera um pronunciamento militar de esquerda em Lisboa, e o Poder constituído caíra sem oferecer qualquer resistência digna desse nome. Depois, tal como já tinha acontecido noutros momentos da História portuguesa em que há uma tomada de Poder hostil por outro sector político, o resto do país toma tranquilamente conhecimento do facto – não pelo telégrafo – como era habitual, mas através da rádio e da televisão. Instantaneamente a nação mudou de cor política e nada fez para além de acatar e submeter-se à nova autoridade.  À noite, frente às câmaras da TV o novo poder mostra a cara: um grupo de militares de alta patente assumem-se como Junta de Salvação Nacional.

A «salvação» anunciada no «lettering» do novo poder, iria dar lugar a uma sucessão de acontecimentos que transformaram o país. Mas não o salvaram, nem pouco mais ou menos, porque o tempo daquele tipo de salvadores já não era aquele, nem aquela era a forma de ajudar um país que na altura, precisava de resolver problemas concretos. Todavia não através destes «salvadores» (e daqueles que na sombra os influenciavam). Estes, da tal quinta-feira de Abril não vinham trazer soluções; vinham agravar os problemas de que eles mesmos já eram uma parte significante.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Sexo, Sociedade e Memória (3)


Uma cama cheia de surpresas...

Conheci também de muito perto uma outra situação hilariante, mas esta, tanto quanto sei, não passou pelo “falatório” em torno do Pelourinho, porque no interesse dos envolvidos e para evitar o escândalo, a história foi discretamente abafada e as vizinhas “linguarudas” nunca souberam o desfecho, ficando a supor que tudo se tinha solucionado através de uma concertação interna entre os protagonistas, o que realmente aconteceu. Que aconteceu?

Num prédio antigo da Covilhã, de  três pisos, um casal ocupava o rés-do-chão e um outro casal os dois andares de cima. A certa altura estabeleceu-se intimidade sexual entre a mulher que vivia no andar de baixo e o vizinho de cima. Este vizinho, era uma pessoa com um hábito invulgar; aproveitava todos os momentos que estava em casa após a saída do trabalho, para se meter na cama alegando cansaço físico. Era ali que a esposa, que se mantinha normalmente na cozinha, no piso superior ocupada com as lides domésticas, lhe levava as refeições. O hábito foi sendo consagrado pelo tempo e ninguém, que eventualmente lá fosse a casa, estranhava encontrar o nosso homem na cama.

Com alguma imaginação ele e a vizinha que andava a “comer” começaram a aproveitar-se disso. Então, ela subia sorrateiramente as escadas interiores que levavam do piso térreo ao primeiro andar e… enfiava-se na cama do nosso homem. Quando, por qualquer razão, a esposa descia da cozinha e vinha ao andar intermédio onde se situava o quarto do casal, numa altura em que a vizinha de baixo se encontrava lá dentro da cama, esta encolhia-se o mais que podia dentro dos lençóis, procurando fazer o menor vulto possível para passar despercebida, o que deve ter sucedido vezes sem conta.
 
Não sei quanto tempo durou a situação, mas esta alterou-se radicalmente quando algumas vizinhas mais dadas a mexericos e suspeições começaram a murmurar entre elas, e esse murmúrio chegou aos ouvidos da esposa do nosso homem cansado e acamado a tempo inteiro, por vontade própria

Um dia, há sempre um dia, a senhora, com os ouvidos cheios pelas tais vizinhas e pelas suas recomendações e recados para que “abrisse os olhos” para a realidade do que se estava a passar na sua casa (e, digo eu, na sua cama), desceu ostensivamente da sua cozinha e veio ao quarto do marido a pretexto de lhe perguntar qualquer coisa, mas então já com “mil olhos” para os relevos da cama. Algo deve ter visto porque, de sopetão puxou a roupa da cama toda para trás e lá dentro, muito aninhadinha e supostamente seminua, estava a vizinha de baixo. 

A história acaba aqui porque eu não sei mais pormenores, mas ao que julgo, o nosso homem cansado e voluntariamente acamado o tempo todo, depois de ouvir da esposa e da família aquilo que só poderemos imaginar, passou a ter uma vida mais activa e saudável, saindo de casa com a frequência que é normal nas pessoas que não têm um antro secreto dentro da própria cama conjugal.  

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Sexo, Sociedade e Memória (2)


O Sexo e a Liguagem dos Tempos

Do vernáculo que se escutava nas conversas no Pelourinho, muita coisa se perdeu com o tempo, substituído, como tantas outras por expressões equivalentes do inglês, actualmente amplamente hegemónico sobretudo entre a juventude. Quer isto dizer, que palavras que hoje se ouvem correntemente na TV – “fuck you” – por exemplo, entravam também nas conversas que se escutavam no Pelourinho,  só que, diga-se em abono da verdade, eram aplicadas mais parcimoniosamente no português falado e sobretudo jamais diante de senhoras ou crianças.

Não pretendo apresentar uma listagem exaustiva das expressões que então se ouviam, mas então ninguém ficava embaraçado se ouvisse dizer que fulano “ia às putas” quase todos os dias; que uma certa prostituta com o nome de guerra de Maria dos Fados, tinha uma forma própria de exigir o pré-pagamento dos seus serviços com uma expressão determinada e taxativa: “dinheiro na mão, cu no chão!”; que alguém referisse um terceiro para dizer que esse tinha apanhado um “esquentamento” (gonorreia – doença sexualmente transmissível) com determinada pessoa ou local; que a rapariga tal “já não tinha os três” (vinténs, que já não era virgem) ou também de que já estava “furada” com o mesmo significado; que certa mulher tinha posto “os palitos” (cornos) ao marido; 

Que uma pobre rapariga vinda do meio rural para a cidade tinha começado a namorar um soldado e que este a convencera a irem para um sítio ermo, onde então apareceram outros homens e a rapariga acabou ser violada por todos como se diria nos nossos dias mas que então se referia de uma forma mais simples e redutora – “apanhou uma geral”

Os preservativos existiam há imenso tempo, mas chamados desta maneira, e geralmente em surdina, só mesmo quando se ia discretamente à farmácia comprá-los. No dia a dia eram simplesmente designados por camisas de Vénus. As relações sexuais entre as pessoas não integravam o disparate e o contra-senso da expressão “fazer amor”, mas referiam-se a “engates” a “pôr-se nela” etc. 

Uma família da Covilhã era conhecida por uma alcunha, remotamente originada, suponho, por um  dito de um(a) sua ancestral, e que assim mesmo se transmitiu aos seus descendentes: eles eram os  Vaquesevenha (ler “vá, que-se-venha!”), como podiam ser os Tavares ou os Martins. O ouvido foi ficando familiarizado com a fonia da palavra, e as pessoas pronunciavam-na, ouvi-a referida em conversas femininas, mas ninguém se apercebia do que estava a pronunciar se a palavra fosse analisada com os seus componentes ortográficos devidamente separados.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Sexo, Sociedade e Memória (1)

Não ma magoem lá muito, porque ela tem andado adoentada!

Pelo Pelourinho, mais cedo ou mais tarde, acabava por passar toda a gente que vivia ou vinha à Covilhã. Centro privilegiado de cavaqueira, aqui falava-se de tudo. Como não seria de estranhar, entre muitos outros relatos de acontecimentos locais, as histórias picarescas que corriam no “boca-em-boca” da cidade, ali iam parar. Uma vez que a esmagadora maioria dos participantes nas conversas eram homens, a linguagem utilizada continha o “vernáculo” nacional e ainda algum caracteristicamente local. Essa linguagem é em si um património local, que até hoje ninguém se ocupou em fazer recolha. É assim como uma espécie de “folclore da linguagem” covilhanense, anos 50/60.


No poste “Sapato Apertado Não”, http://tinyurl.com/3xsrvjb ,tive ocasião de recordar uma dessas histórias que, com a reserva de factualidade que se tem de atribuir a tudo o que vem da fonte do “ouvi dizer…” correu a cidade: o famoso “39 ou 40”. Mas há outras do género, que chegaram até mim nesses anos do meio do século…

Havia um casal (gente modesta, operários têxteis ambos), em que a mulher – que acabou por ter o nome de guerra de “A Chatice”, porque repetia o termo recorrentemente e a despropósito - procurava ganhar uns dinheiritos extra oferecendo o corpo a uns quantos senhores, (…tudo gente do maior respeito, garantia ela às vizinha que sabiam do negócio).

A originalidade está no processo utilizado. Os tais senhores e, já agora também os amigos dos senhores e por fim os amigos dos amigos – passavam de automóvel na rua onde a dama vivia a uma determinada hora previamente combinada, através de uma espécie de “angariadora” – vulgo, alcoviteira, que recebia uma determinada quantia como se compreende. Tocavam a buzina e a senhora vinha. Mas, sempre acompanhada do marido, que a conduzia até ao carro, assim como quem vai fazer um reconhecimento do “ambiente” e das pessoas (geralmente era mais do que uma) que iam participar na operação. Então ela entrava para a viatura (que por vezes até era um táxi), partiam e o marido voltava para casa.

Umas pessoas que eu conheci, utilizaram estes “serviço” através de “marcação” prévia com a alcoviteira. O casal lá se aproximou do carro, olhou as pessoas, ela entrou e antes de o automóvel partir rumo a um paraíso algures num local ermo, o homem olha os ocupantes de frente e com m ar compungido faz-lhes um pedido: - “Olhem, por favor não ma magoem lá muito, porque ela tem andado adoentada!”

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A Avaria do Carro do Senhor de Chapéu à Diplomata.


Com cara de poucos amigos, atravessa a Praça do Pelourinho um cidadão da Covilhã, Ariel da Silva Melo e Castro de seu nome. Dirige-se à esquadra da Polícia para apresentar queixa, contra um seu vizinho, Manuel Infante a quem acusa de lhe ter furtado uma galinha e um galo 

duma capoeira que o queixoso possui no quintal. Baseia a sua suspeita no facto de aquele vizinho ter, no dia seguinte, convidado uns amigos para um lanche onde apresentou canja de galinha. A data registada na queixa pela polícia, referia um dia do mês de Fevereiro do ano 1952.

Pelo Pelourinho ouviam-se ecos de conversas onde imperava o desagrado e a suspeição de algumas pessoas: mais exactamente daquelas que possuíam um automóvel, que, refira-se, eram muito poucas. Na origem estavam editais da Câmara colocados pela cidade que avisavam os proprietários de veículos automóveis de que deveriam obrigatoriamente manifestá-los na respectiva Secretaria. 

A medida não era de modo algum arbitrária como se entende, e visava um objectivo concreto: a possibilidade de requisição das viaturas particulares para prestarem serviço público, nomeadamente ao serviço do Exército, no transporte de tropas, situação que se viria a verificar algumas vezes, especialmente quando ocorriam "manobras militares". Nesse tempo também o Exército não possuía frota automóvel suficiente para movimentar efectivos militares.

Certa ocasião, estando a tratar de assuntos pessoais numa secretaria do Batalhão de Caçadores 2 da Covilhã, presenciei, a meu lado, um sujeito bem vestido e com o seu “chapéu à diplomata” na mão, a vir dar conhecimento aos militares dessa repartição militar, que a (supostamente demorada) reparação do seu automóvel, tinha sido concluída e que portanto (implicitamente) a viatura estaria disponível perante o Exército. 

Ele saiu a seguir, mas eu fiquei ainda o tempo suficiente para ouvir o comentário que dois dos militares da repartição trocaram: - “Sacana, Judeu! Veio agora dizer que o carro já estava reparado, quando soube que as “manobras” (para as quais o carro podia ter sido requisitado) já acabaram. Assim, não só resguardou habilidosamente o automóvel, como, ao vir aqui agora, livra-se da multa em que incorria!”

Um anúncio colocado no Notícias da Covilhã dá conhecimento de que se vendem “teares manuais de maquineta e lisos, devidamente contingentados”. Este "contingentados" esclareça-se, tem a ver com a legislação de condicionamento industrial em vigor, a qual tornava possível a quem adquirisse os alvará de 2 teares manuais, pedir o seu abate e instalar em seu lugar um tear mecânico. Assim iam passando os dias na Covilhã.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Um Banco sem Dinheiro


Nada nos garante que o presidente da Câmara da Covilhã, Dr. Francisco Henriques da Silva, ao discursar em 1925, por ocasião da abertura da delegação do Banco de Portugal na rua Ruy Faleiro, intimamente pensasse que aquele não era propriamente o momento mais adequado para o evento. Mas teria muita razão. 

A beleza arquitectónica do edifício parecia querer mostrar para o exterior uma grandiosidade que estava bem longe de ter correspondência na solidez monetária e financeira do Banco e, por arrastamento, de toda a economia portuguesa. As reservas do Banco de Portugal eram, na altura, das mais baixas de toda a Europa. As fugas de capitais para o estrangeiro atingiam valores de hecatombe. 

É no meio de mais uma grave crise financeira, a que os portugueses já estavam habituados embora não conformados, que surge a descoberta da  grande burla do Banco de Angola e Moçambique. Alves dos Reis e seus cúmplices conseguiram que a própria casa impressora das notas de banco portuguesas lhes fabricasse duplicados das notas de 500 escudos. Notas falsas inundam o mercado. Desconhece-se o montante falsificado, que, segundo algumas fontes seria de 200 mil notas; mas a situação financeira portuguesa, de tão mal estar, pouco ou nada foi afectada.

A situação de penúria nacional é tal que em Lisboa, o Governador Civil pede ao Automóvel Clube de Portugal que contribua para a aquisição das fardas e dos capacetes especiais dos 90 polícias de trânsito...

Nalgumas casernas da tropa, velhos oficiais generais afiavam as respectivas espadas prevendo que iriam ter de usá-las, enquanto ainda havia um país…

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

E a Guerra Aqui Tão Perto...

A Emissora Nacional deu a notícia logo às primeiras horas daquele dia de Junho de 1940: «Paris tinha sido ocupada pelos Alemães!»

No grupo de pessoas que habitualmente ia à loja do Romano comprar o jornal e aí ficava a comentar a actualidade, a opinião era unânime: - «os exércitos de Hitler estavam imparáveis, e a ocupação da restante Europa ocidental, mera questão de tempo e de estratégia político-militar».
Alguém acrescentou a informação, ouvida na noite anterior na BBC, de que as poderosas Divisões Panzer estariam já concentradas nos Pirinéus aguardando instruções para executar a Operação Felix - a ocupação da Península Ibérica. Sentia-se medo no ar.

Em Lisboa, o Conselho de Ministros reunido em S.Bento, avaliava, preocupado a situação internacional: a França estava reduzida a um terço do seu território depois da instalação em Vichy de um governo francês colaborante com o invasor alemão e, em consequência do recente encontro de Hitler com Franco em Hendaya, na fronteira franco-espanhola, temia-se uma aproximação entre a Espanha e a Alemanha. A agressividade contra Portugal, da imprensa espanhola afecta à “Falange” de Franco,
já não pressagiava nada de bom.

Salazar e a diplomacia portuguesa, jogam com uma habilidade que teria por recompensa final, o mantimento do país fora do cenário da guerra, com o estatuto de país neutral e não beligerante. Ainda assim, saber-se-ia depois que, na pior das hipóteses, o Governo tinha um plano de contingência, pronto para ser executado e que passava, entre outras medidas, por se transferir para os Açores, se necessário.

Enquanto isso, os escaparates das livrarias exibiam o grande sucesso literário do momento: o livro de Arthur Koestler, “O Zero e o Infinito”: uma crítica contundente ao despotismo estalinista, que valeu ao autor a inimizade dos escritores Jean-Paul Sartre e Albert Camus.
Era também um livro que marcaria toda uma geração de comunistas – Partido ao qual o autor, um judeu húngaro que abandonara o seu país para escapar a um «pogrom» anti-semita - chegou a pertencer até 1938.
Koestler, viveu então um longo e acidentado percurso, com uma participação na Guerra Civil espanhola e uma passagem pela Legião estrangeira (esta para evitar uma deportação para Leste), até encontrar refúgio em Inglaterra.

A frase-chave de “O Zero e o Infinito”, ficaria para sempre a pairar sobre a “realidade negra” do chamado socialismo científico: - “O Partido nunca se engana, camarada. Tu e eu podemos enganar-nos. Mas não o Partido. O Partido é alguma coisa mais do que tu e eu e que mil outros como tu e eu. O Partido é a incarnação da ideia revolucionária na História”.

“O Zero e o Infinito”, é um desses livros que ultrapassam a sua época. Não é apenas um retrato de uma nação e seu sistema político, mas também, um “close-up” dramático sobre o estalinismo e os Processos de Moscovo.

Numa mesa à entrada no Café Central comentava-se elogiosamente a recente abertura da Exposição do Mundo Português, na Praça do Império em Lisboa, que algumas pessoas do grupo já tinham visitado e por isso a recomendavam aos outros. Na altura, nenhum deles o poderia saber, mas ter-se-iam de esperar quase 70 anos para que um evento de
dimensão semelhante, a Expo 98, tivesse lugar em Portugal.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Fujam!... Vem aí o Teófilo.


Palavras com «êxodo da população» e «refugiados», não é habitual serem referidas quando se fala na História da Covilhã. Mas, ainda que em escala mal definida, essas coisas aconteceram por aqui e o Pelourinho é, uma vez mais, testemunha desse tempo conturbado.

Basta que apontemos o ponteiro do tempo e da memória para o ano de 1919 do século XX. Em Janeiro, com a dramaticidade de um verdadeiro «salve-se-quem-puder», uma palavra de ordem  foi passando na população de boca em boca: - “Vêm aí o Teófilo. Fujam!”. Este episódio só o conheço devido a tradição oral que o trouxe até mim. Diversas vezes ouvi pessoas mais velhas referirem-se ao incidente, relatando que, - “...então muita gente abandonou as suas casas, de onde retirou apressadamente roupas, víveres e até imagens de santos, para se ir refugiar algures nos arredores e na floresta da encosta da Serra”.

O episódio tem um suporte histórico. É factual que em 10 de Janeiro de 1919 ocorreu uma «revolta republicana» na Covilhã e em outras cidades do país. Para forçar a rendição dos revoltosos, que ocorreria em 15 de Janeiro, veio ocupar militarmente a cidade uma coluna militar – ficou conhecida como a «coluna negra» - comandada pelo então tenente Teófilo Duarte.

Este era apoiante de Sidónio e curiosamente tinha estudado neste Distrito, no Colégio de São Fiel, próximo da Covilhã, um colégio dos jesuítas. Após a morte de Sidónio Pais, foi alto-comissário no distrito de Castelo Branco, tendo-se revoltado contra o governo de José Relvas. Para se entender algo que parece insólito – terem eclodido na Covilhã e em outros pontos do país «revoltas republicanas» - quando o República era o regime oficial do país desde 1910, terá que aprofundar-se um pouco o ambiente político e social que então se vivia em Portugal.

Sidónio Pais, justamente apelidado de Presidente-Rei, tinha «reinventado» a República e a Constituição de 1911 por forma a criar uma figura política, então ainda não conhecida no Portugal republicano: o presidencialismo. Fora assassinado em Lisboa um mês antes e o rasto político que deixara no país estava longe de se extinguir. Remotamente, as suas ideias para Portugal iriam ter continuidade no surgimento do Estado Novo após a revolução de 1926.

Para se compreender o que foi o consulado de Sidónio Pais – tão idolatrado pelo povo humilde e a expectativa benévola da União Operária Nacional, quanto odiado pelos republicanos mais radicais e pela sempre poderosa Maçonaria – bastará dar um pequeno exemplo: o Governo de Sidónio não tinha ministros, apenas secretários de Estado, ignorando completamente o Congresso dos Deputados que, por sua vez, o hostilizava abertamente.

O Congresso dos Deputados, aquele lugar onde seria suposto serem feitas serenamente e com competência as leis que iriam reger a República, era – infelizmente ainda é, muitas vezes - um local onde se fazia tudo por exibir o lado mais negativo do parlamentarismo – onde se trocavam insultos e acusações pessoais e políticas entre os congressistas, quando não bengaladas e desafios para duelos.
Interpretando tudo isso Sidónio entendeu que, no interesse superior do país, deveria ignorar por completo o Congresso e governar mesmo quando em evidente ruptura com a Constituição de 1911.
Noutro movimento inconstitucional, a 11 de Março de 1918 por decreto, estabeleceu o sufrágio directo e universal para a eleição do Presidente da República, subtraindo-se à necessidade de legitimação no Congresso e enveredando por uma via claramente plebiscitária. Sidónio Pais governava através de decretos, por vezes ditatoriais. Por tudo isto, dizia-se que havia uma “República Velha”, a que assentava nos cânones da Constituição de 1911 e uma “República Nova”, a sua.

Seria assassinado uma mês antes de ocorrerem os acontecimentos relatados na Covilhã, onde eclodira uma revolta de partidários da República Velha. Todo esse encadear de acontecimentos iriam enquadrar-se naquilo que ficou conhecido por Monarquia do Norte, entre Janeiro e Fevereiro que comentará num outro texto.

Realmente Portugal teve nesse ano uma experiência radical de regionalização: Durante cerca de dois meses o país viveu a experiência política de ter duas regiões demarcadas até ao limite e em cada uma delas, regimes diferentes: uma República e uma Monarquia. Quando hoje se propõe dividir o nosso pequeno país em micro reinos da burocracia, para dar emprego a políticos desocupados que levarão atrás de si  pequenos batalhões de funcionários inúteis e dispensáveis que o Orçamento do Estado terá de pagar, devíamos reflectir no país historicamente somos.

sábado, 27 de novembro de 2010

Trabalho Sempre Existiu. Trabalhadores, só depois de 1848

Caro leitor: Se chegou até aqui, estimulado pela curiosidade de encontrar a denúncia de algum tenebroso sítio, onde se pratique descriminação e “apartheid” a trabalhadores - peço desculpa pelo equívoco. Não é isso que vai encontrar.

Na época que cobre esta crónica havia gente que trabalhava, e, podem crer, muito mais do que se trabalha hoje. Só que os operários, lavradores, serralheiros, advogados, artífices, técnicos, militares, donas de casa, professores etc., todos eles se identificavam perante a sociedade como profissionais disto ou daquilo e não genericamente como trabalhadores. A designação “trabalhadores” e “classe trabalhadora”, tem uma génese muito mais política do que laboral. O conceito de trabalhador surge mais do Manifesto Comunista de 1848 do que da  Revolução Industrial.

Era em torno dessa questão, que a tertúlia reunida à noite na farmácia Soares, ali no Largo do Pelourinho, centrava o debate de forma mais ou menos consensual. Eram todos homens de meia-idade, com algum estatuto social no meio e politicamente moderados, ou mesmo conservadores. Àquela mesma hora, alguns frequentadores habituais do Café Leitão ali próximo, sentados a uma das mesas, discutiam de forma mais sectária e acalorada, na prática a mesma questão.

O que originara a simultaneidade na escolha do tema em debate, em lugares distintos e entre pessoas politicamente tão antagónicas? - Uma Lei do Estado Novo acabada de sair, que instituía formalmente as «corporações»,  que teriam como órgão de cúpula um ministério próprio, o das Corporações. Em causa, afinal estava uma questão simples mas de importância fundamental: a gestão e controle do mundo do trabalho. Quem o iria fazer em Portugal? O Governo através das suas «corporações» ou o movimento comunista e o seu aparelho sindical?

Para a esquerda mais jacobina e republicana reunida no Café Leitão, os mais ligados ao Partido Comunista (então na clandestinidade), entendiam que o diploma governamental, vinha em sentido oposto à direcção dos “ventos da história”,- os seus “ventos” obviamente. Entendiam ser imperiosa a “unicidade sindical” (uma palavra que voltaria à actualidade política em 1975), das pessoas que trabalhavam em todas e quaisquer  artes e ofícios, em torno de uma única personalidade laboral-política: “o trabalhador”.

Esse “trabalhador” seria o protótipo do futuro homem-novo, agora com consciência de “classe”, e pronto para a “luta de classes” contra os seus inimigos naturais - a burguesia, os contra-revolucionários, os capitalistas, os fascistas e outros maus da fita, que havia que “esmagar” para que a Revolução Internacional Proletária triunfasse, na sua rota para a idílica “sociedade sem classes” (... e até sem moeda): o Comunismo.

A exortação dos marxistas do Café Leitão terminava aqui. Sem poderes de premonição, não poderiam prever o rumo da História e perceber o verdadeiro significado de palavras ainda ali desconhecidas, como “kulaks”, genocídios e deportações, que marcariam o período histórico do estalinismo, até a um muro em Berlim.

Afirmavam sim, que aquela medida do Governo tinha uma incontrolável conotação fascista. O que até era verdade, ainda que em versão aportuguesada. O corporativismo é um sistema político originário da Itália Fascista, no qual o poder legislativo é atribuído a corporações de ofícios, representativas dos interesses económicos envolvidos na produção, através das quais os cidadãos trabalhadores, devidamente enquadrados,  participavam na vida política pela voz de representantes por si escolhidos.

Com isto pretendia-se eliminar a “luta de classes” marxista, juntando no mesmo organismo económico-laboral - patrões, operários e o Estado -, que, como entidade neutral, serviria de árbitro e mediador dos conflitos emergentes, maximizando o crescimento económico e possibilitando a atenuação da conflitualidade entre o mundo do capital e o do trabalho. Deixava assim de haver lugar para o sindicalismo militante e, acrescento eu, para as multidões de “sindicateiros” que viriam – em tempos futuros – a fazer desse o seu modo de vida

Era esta a visão partilhada na tertúlia da Farmácia, sintetizada numa das afirmações ali ouvidas: para um país como o nosso, antes «corporações» ainda que políticas, do que «sindicatos»  inevitavelmente politizados. Concordância  entre os campos opostos, só se verificava mesmo no regozijo comum, pela prestação que o Sporting local tivera essa época, que terminara agora em 1956, na disputa do Campeonato de Futebol da Primeira Divisão: um honroso 5.º lugar. 

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Despediram o Gíria !...


Aquele ano de 1881 até acabou em beleza. Beleza no sentido literal do termo. A Sociedade de Geografia  abre uma exposição de Quadros Modernos. 

O núcleo duro dos expositores, onde se podiam encontrar nomes como Silva Porto e Malhoa, pretendia mostrar que, na pintura do naturalismo e da paisagem, havia novas formas e novas técnicas de abordagem ao tema. Infelizmente não me chegaram notícias da aceitação e do êxito da exposição, mas vamos pressupor que deve ter corrido bastante bem.

Em torno da Praça do Pelourinho porém, o tema dominante das conversas nada tem a ver com pintura ou com paisagens. Tem a ver com violência laboral. Numa sucessão de acontecimentos originados por uma greve na Fábrica Velha, ocorre o despedimento do tecelão José Gíria homem de esquerda e futuro industrial dos lanifícios que, ao que se diz, teria cometido um erro numa teia. 

Então, alguns operários fazem “uma espera” no sítio da Fonte das Galinhas ao Mestre Geral da fábrica sr. Thoratier, que pelos vistos residiria ou passaria regularmente por ali, e de súbito se vê assaltado por um grupo de operários de ambos os sexos. Do incidente, fica apenas o facto de que o referido Mestre Geral seria ferido no pescoço devido a um tiro de pistola disparado contra ele. Se o autor ou autores do crime foram identificados e punidos, também não há informação. Não me admira que já naquele tempo, a justiça demorasse muito a seguir o seu curso.  

Na Covilhã e zona têxtil adjacente, discretamente, mas com o necessário rigor e eficiência, decorria um Inquérito Industrial, elemento de trabalho valioso para ser feito o diagnóstico da indústria predominante na economia local. Era o momento.  A partir de 1850 inicia-se com o período do “Fontismo”, também as bases da estrutura capitalista moderna no nosso país que vem marcar uma modificação sensível na orientação económica portuguesa, não só no eixo económico e financeiro, mas também na definição de um novo quadro jurídico, populacional, cultural e técnico. Desenvolvem-se vias de comunicação e, nomeadamente, o caminho de ferro.

O Inquérito Industrial de 1881 espelha em termos globais, um efectivo desenvolvimento da indústria moderna em Portugal, que se traduz pelo aumento dos estabelecimentos fabris com mais de 10 pessoas, do número de operários envolvidos nos vários sectores e por um incremento no nível tecnológico onde porém, só 9 empresas tem engenheiros nos seus quadros, 6  dos quais estrangeiros e apenas 2 portugueses.
Quando os relatores do Inquérito se têm de pronunciar sobre as causas profundas do nosso relativo atraso em questões industriais, recorrentemente são apontadas as falhas de formação técnica, a ausência de contabilidade nas empresas, concluindo pela necessidade de um maior esforço no desenvolvimento da instrução.

O relatório, na parte respeitante à Covilhã, referiria especificamente : “existem nas fábricas da Covilhã bons teares Jacquard, tanto mecânicos como manuais e teares comuns; há 13 teares Jacquard mecânicos,  44 teares mecânicos comuns e 658 teares comuns manuais, ao todo, 57 teares mecânicos e 802 teares manuais. Vê-se pois que a tecelagem mecânica relativamente à manual é bastante diminuta. Os operários têm uma grande aptidão industrial, evidentemente formada pela educação das crianças dentro das fábricas. Esta instrução profissional prática faz com que o operário da Covilhã se afaste de se entregar a outros mesteres que não sejam os da fiação e tecelagem  e neste facto reside a grande potência industrial da cidade"

Segundo o relatório, haveria na Covilhã à época, 73 fábricas e 2715 operários. Os números finais do  Inquérito Industrial de 1881 apresentaria  para o universo têxtil nacional - 1.247.260 Fábricas, Oficinas e Pequenas Oficinas;  90.000 Operários; 9.000 cavalos de força-motriz utilizada.

sábado, 20 de novembro de 2010

A “estátua” da PIDE revisitada …(3)


(...continuado)
Ao ir ressuscitar “a tortura da estátua” no livro – trago do meu arquivo de memórias, uma circunstância passada com o antigo presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan. Este que passou a II Guerra Mundial em Hollywood, descrevia com toda a nitidez o papel que desempenhou na libertação de vítimas dos campos de concentração nazis. Pelo facto de viver no mundo do cinema, confundia filmes que vira com uma realidade que não vivera. Em muitas ocasiões contou uma história épica de coragem e sacrifício ocorrida durante essa guerra. Só que esta nunca existiu, mas sim, era o argumento do filme “A Wing and a Prayer”.

O livro do JAP pode, como ele afirma, não ter qualquer ficção (não o li, não posso contradizê-lo), mas as palavras que proferiu à cerca do mesmo, essas sim, têm, ficção, e muita. Afirmo-o, porque “eu também estava lá!” Estava lá, por exemplo, no comício do Humberto Delgado no Cine Teatro da Covilhã. Não havia cordão de polícia algum à saída, não vi ninguém ser maltratado ou sequer preso. Todo esse ímpeto de revolta e ânsia de liberdade por parte da juventude, ocorria aonde? Eu também era jovem e aí que me movimentava.

A “malta” estava mais preocupada com os resultados do futebol do que com a política. Esta, só chegava à noite com os jornais vespertinos que o Leal vendia sob as arcadas da Câmara. Os soldados que estavam no Batalhão de Caçadores 2, realmente saíram para a estrada a vitoriar o general Delgado quando passou na Marquês d’Ávila e Bolama (eu estava lá!). Fora esses pequenos incidentes o dia-a-dia decorria normalmente.

Havia por cá os políticos do “contra”, quase todos pessoas estimadas na terra. Recordo o Dr. Raposo de Moura, o Jerónimo Sena, o Augusto Lopes Teixeira e outros. Por muito que custe ouvir a certas pessoas, naquela altura pouquíssima gente fazia ideia de quem era o Dr. Álvaro Cunhal. O país conheceu-o (atenção: falo do “segundo” homem mais importante da nossa História a fazermos fé no concurso da TV), apenas quando Mário Soares o promoveu e apresentou ao país, indo abraçá-lo à estação de Santa Apolónia quando, vindo do estrangeiro, chegou a Portugal em 1975.

Tortura da estátua? Ui! Mas isso ainda existe hoje. Que outro nome dar à longa espera de pé, a que nos sujeitam muitos serviços do Estado? No momento em que pretende personalizar e actualizar a memória da sua “dita” tortura -, método da PIDE que se tem tentado esconder como diz (aqui só posso sorrir) -, peço-lhe desculpa da rudeza, mas acho que o JAP, que é uma pessoa que eu estimo pessoalmente e a quem reconheço o grande dinamismo cívico, que, à falta de melhor indicador, faz de si a pessoa que mais listas eleitorais de associações locais de todo o tipo encabeçou (e … foi protagonista dos conflitos resultantes), não tinha estatuto pessoal ou político, nem para a PIDE nem no PCP para merecer essa forma de tortura. Lamento, mas a verdade tem que ser dita e para esse tipo de martirológio, eu já dei! (Fim)

A “Estátua” da PIDE revisitada …(2)

(...continuado)
No entanto a reposição da verdade histórica é extremamente difícil devido à falta de documentação existente. Os ficheiros da PIDE desapareceram porque, ao que se diz-se,  a sua revelação punha a descoberto os crimes e os vícios de muitos impolutos lutadores antifascistas, alguns deles bufos da PIDE. Os ficheiros importantes foram, para a União Soviética. Os que vieram para a Torre do Tombo são refugo.

Ao que parece, desapareceu o processo secreto do navio Angoche, em cujo afundamento estava implicado o PCP; desapareceu o processo do dr. Álvaro Cunhal; desapareceu o processo que comprometia o bando de Argel na morte do general Humberto Delgado; desapareceu o processo de Júlio Fogaça, militante do PCP, preso com o namorado, que era um soldado de Cavalaria 7; desapareceu o processo que demonstrava que a famosa fuga de Peniche fora preparada pela PIDE; desapareceu o processo do Jean Jacques Valente, que estava preso por homicídio, e que depois do 25 de Abril foi credenciado para interrogar os funcionários da PIDE, em Caxias...

Por outro lado, fontes ligadas ao processo de extinção da PIDE/DGS referem que apareceram muitos ficheiros fabricados e introduzidos nos arquivos depois do 25 de Abril, para dar um estatuto de mártir e de torturado a pessoas que nunca entraram sequer na sede da António Maria Cardoso. Ao que parece, esses “mártires” têm direito a benefícios fiscais e pensões do Estado. Talvez isto ajude a explicar a inflação de torturados...

Ainda assim, é consensual que em Portugal houve uma polícia política brutal e repressiva até 1945 que, convém recordar, enquanto polícia política já vinha muito lá para trás, na história portuguesa bem anterior ao Estado Novo e até, à I República. Os regimes autoritários dominavam então na Europa e as suas polícias reflectiam esse ambiente. Torturavam-se e nalguns casos matavam-se pessoas. Havia a colónia penal do Tarrafal. Parece que é documentalmente comprovável que a polícia política portuguesa matava menos que as suas congéneres europeias, para não falar na NVKW de Estaline, mas esta contabilidade é sempre sinistra.

Depois de 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, tiveram que ocorrer mudanças. Se não nos objectivos – o combate à subversão do Estado -, sobretudo nos métodos - o período de detenção para averiguações deixou de poder exceder os 180 dias, os Processos passam obrigatoriamente a ter a forma escrita – mas também na estratégia.  A PIDE que já fora PVDE e outras designações e que terminou os seus dias em DGS (Direcção Geral de Segurança) ou até, segundo alguns, também já em plena democracia como COPCON, com os famosos mandatos de detenção emitidos em branco e simulações de fuzilamentos nos locais de detenção.

Dizia eu, a polícia política nos anos 50/60 estava toda voltada para a neutralização da estrutura clandestina do Partido Comunista e até em relação a esta, muito na óptica persuasiva do “Atenção! Olhem o que vos pode acontecer, portanto não se metam em política, porque, senão, são presos; nós temos informadores em todo lado”. O  peixe miúdo, os passadores de panfletos, e grafitadores de paredes, não lhes interessavam porque não lhes reconheciam potencial para constituírem perigo para o Estado.  

A “Estátua” da PIDE revisitada …(1)


Leio na imprensa que o meu conterrâneo 
José António Pinho (JAP) acaba de fazer a apresentação pública do seu livro 
“A Estátua – A tortura preferida pela PIDE”

na Câmara Municipal da Covilhã. Segundo o Jornal do Fundão, “na presença de mais de centena e meia de pessoas”. A minha primeira reacção será para felicitar JAP pelo publicação do livro, sobre o conteúdo do qual não me posso pronunciar, porque, apesar de o ter procurado exaustivamente nas livrarias da cidade –  não o consegui encontrar e adquirir.

A segunda reacção será para me congratular com o elevado número de pessoas que estiveram presentes no acto da apresentação e com o significado inerente ao facto, porque esta afluência de pessoas na apresentação da obra de um autor estreante, é coisa que raríssimos escritores portugueses, já com obra publicada e nome feito nos meios literários, conseguem. Falando francamente, não posso deixar de me interrogar – por muitas razões e até pelo perfil de algumas pessoas e entidades apoiantes - sobre se a grande número de presentes não se deve à circunstância de, muitos delas virem da sede de um organismo político da cidade, que fica ali logo, logo, a escassas dezenas de metros atrás do edifício da Câmara.

Se não me posso, nem devo, pronunciar sobre o conteúdo do livro, já o seu título e os comentários de enquadramento do autor e de alguma imprensa – que são públicos – me oferecem alguns reparos.
Ao saber que o JAP ia fazer um “remake” de uma história já recontada e explorada até à exaustão por muita gente: as “torturas” da PIDE nos anos 50, de imediato me deu uma sensação de que estava a mexer, sem eventualmente trazer nada de novo, em algo requentado e de certo modo fora do período de validade. Esta história, continua a estar por fazer. Falta-lhe um mínimo de  distanciamento temporal para lhe transferir credibilidade, e ser feita por historiadores imparciais e descomprometidos. 

Então, diz o povo que quem conta um conto sempre lhe acrescenta um ponto. Ou vários. As narrativas e relatos sobre a PIDE dos inúmeros “anti-fascistas” que proliferaram após 1974, , valem o que valem, enquanto não puderem ser aferidas por métodos mais históricos. Falta sempre aqui o contraditório, algo ou alguém com suficiente credibilidade intelectual para contrapor também relatos sobre os “anti-fascistas”, onde, ao que parece, também há muita história para contar.
 
Acabo de ler “A História da PIDE” de  Irene Flunser Pimentel, que pretende, segundo a autora, ser realmente “o primeiro trabalho de fundo sistemático sobre a PIDE entre 1945 e 1974″. É imperioso que este trabalho seja continuado. (continua...)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Sobre Caveiras de Burro e de Imortais que ... Morrem!


Naquele Fevereiro de 1939 um frémito de emoção perpassava as páginas do jornal católico Notícias da Covilhã, bem evidente nos seus títulos de caixa alta: 
“Faleceu o papa Pio XI.”. 

Compreende-se. Já podia deixar algo confusos, alguns leitores sem capacidade para lerem o sentido figurado das afirmações, outras peças jornalísticas que vieram a ser escritas sobre assunto do momento na comunidade católica. Uma delas,  publicada na edição seguinte do semanário, era encimada por um título onde se lia “Pio XI Pontífice Imortal”.  Entende-se a intenção subjacente à afirmação, mas – o português é muito ingrato como diria o humorista Herman décadas depois – é suposto que se alguém é verdadeiramente imortal, não morre. Mas vamos adiante.

Mário Quintela, um homem notável que, não sendo natural da Covilhã, aqui viveu uma grande parte da sua vida, deixando o nome ligado a várias realizações na cidade – poucas, e disso ele queixava-se –, era o que hoje se poderia chamar um “opinion maker” local. Escrevia regularmente no Notícias da Covilhã, de que chegou a ser Director. Numa das suas crónicas da época,  entendeu detalhar a origem de uma lenda que corria, na cidade: Haveria – diziam os mais velhos - enterrada algures na Praça do Pelourinho, a caveira de um burro que possuía o maléfico poder de impedir todo o progresso na Covilhã.

A lenda, segundo Mário Quintela, viria do tempo das Invasões francesas. Num certo dia, um coronel do exército de Junot entrara na Covilhã com o seu destacamento militar. Vinham cansados, estropiados e o coronel ao passar pelo vila do Paul, teria ali “requisitado” à força um burro – já não em muito bom estado de saúde – para o conduzir até à Covilhã. Ao transpor o arco do Pelourinho à frente das suas tropas, o burro foi-se a baixo, pregando com os costados do coronel na calçada, causando-lhe vários ferimentos e até a fractura de uma perna.  O coronel ficou tão furioso com a humilhação, que evocou os seus deuses para que amaldiçoassem para sempre a terra que fizera a sua desgraça, enquanto permanecesse nela a caveira do burro que, logo ali deu ordens para que fosse sepultado em local secreto.  

A caveira nunca foi encontrada e o progresso da Covilhã, foi algum certamente, mas talvez não tenha sido o que podia ser, porque, algures, a caveira do burro, está a cumprir a maldição …

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

"The Small is Beatiful"? Quando a Covilhã disse "NÃO!


Quando as crises começaram a assediar os Lanifícios, que na época já era um sector difuso e mal caracterizado, com o desemprego e as falências a sucederem-se, o diagnóstico dos sábios locais foi uma vez mais uma sucessão de disparates.

Os Lanifícios tinham, diziam eles, sobretudo um défice de dimensão crítica, numa economia de escala.  A solução passava por aumentar a dimensão crítica das empresas existentes através de fusões, concentrações etc. Produção, era a palavra-chave para o sucesso! Crescimento, produtividade, gestão por objectivos já! - “The Big is Beatiful”. 

É com um sorriso que se recordam as pequenas fábricas têxteis com os arcaicos teares de lançadeira que trabalhavam a cadências da ordem das 90 passagens (de lançadeira) por minuto mas que, numa obsessão pela produtividade, e num “taylorismo” tardio, gastaram horas e esforço. para em harmonia com as novas modas industriais, colocaram no imediato os velhos teares aos pares e vis-a-vis para – idealmente, o que raramente acontecia – um só operário trabalhar com as duas máquinas.. Eureka! 

O adversário económico, que punha em risco a continuidade dos Lanifícios diziam, chamava-se Terceiro Mundo e os seus salários baixos. A ninguém ocorreu esta verdade comezinha: a têxtil na generalidade é uma indústria de mão de obra intensiva apropriada para o arranque económico de países atrasados ou em via de desenvolvimento. Mas a indústria de Lanifícios clássica e sobretudo a portuguesa, não é dependente do preço da mão-de-obra, mas sim da qualidade dessa mão de obra. Cito um autor muito recente: 

«Na indústria de lanifícios, ao contrário do que acontece com a de algodão, a concorrência desenvolve-se sobretudo entre países industrializados. A especificidade do produto final, normalmente fabricado em pequenas séries, com incorporação de design e frequentes adaptações à moda e ao seu preço, impede que se destine a um produto massificado. Por outro lado a necessidade de mão-de-obra qualificada e experiente, não facilita a relocalização da produção para países que apenas têm para oferecer baixos de mão-de-obra. A União Europeia continua, assim, a ser o principal produtor de lanifícios, destacando-se entre os países membros, a Itália, a Alemanha e a França, que têm igualmente um papel relevante na produção mundial (in A Geografia da Indústria de Lanifícios na União Europeia – Iva M. Pires)»

A indústria de Lanifícios seguiu pelo caminho errado?  Sim e não. Para a economia regional e para os milhares de trabalhadores que foram perdendo os seus postos de trabalho, pouco interessa saber se hoje se produzem mais metros do que nos tempos em que havia pleno emprego nos Lanifícios, a resposta é óbvia. Para os que com sabedoria e calculismo apostaram no erro e na ignorância dos seus concorrentes, assistindo à sua eliminação, até ficarem finalmente numa posições hegemonia no mercado dos lanifícios, o caminho foi o certamente o melhor. Os monopólios tem má imagem política, mas trazem imensas vantagens a quem finalmente os detém.

domingo, 14 de novembro de 2010

Coimbra é uma lição ....

Naquele ano de 1947 pode dizer-se que ao longo de várias noites meia Covilhã passou pela Praça do Pelourinho e subiu as escadas de acesso ao Cine-Teatro para ver um dos filmes portugueses com mais sucesso de sempre: "Capas Negras". 
A película de Armando de Miranda, um realizador já com alguns êxitos na sua carreira, tinha um argumento centrado no ambiente da vida dos estudantes da Universidade de Coimbra, dos seus amores e desamores com as “tricanas” –  raparigas do povo da cidade coimbrã. Era também uma homenagem aos dois grandes estilos de fado português: o de Coimbra e o de Lisboa.

O grande sucesso do filme – estivera seis meses em cartaz quando da sua estreia no cinema Condes em Lisboa e fora visto por cerca de 200.000 pessoas  - vinha dos seus protagonistas principais, Amália Rodrigues e Alberto Ribeiro, dois cantores  de sucesso, que interpretavam, para além dos seus papéis no filme - Amália fazendo a Maria de Lisboa e Alberto Ribeiro o estudante de Direito dr. José Duarte -, mas sobretudo cantando as belíssimas canções do compositor Raul Ferrão que constituíam a banda sonora. Uma dessas músicas, “Coimbra”, viria a ser o maior êxito de sempre da música portuguesa até ao presente, com interpretações e arranjos de quase todos os grandes artista e orquestras internacionais, rebaptizada de “Abril em Portugal".

O filme estreou comercialmente no cinema Condes, Maio de 1947; só em Lisboa esteve 6 meses em cartaz, com 350 exibições e cerca de 200 mil espectadores, no que foi um dos maiores êxitos de bilheteira de sempre no cinema português. Em papéis complementares eram protagonistas de Capas Negras, nome conhecidos da época (e alguns de hoje) com Artur Agostinho, Vasco Morgado, Barroso Lopes, Humberto Madeira etc.

De volta à actualidade desse tempo, a situação no país e na Covilhã, continuava muito difícil, marcada pelo período do pós guerra. Persistia o racionamento alimentar.  Cada pessoa dispunha de uma senha de racionamento mensal com a qual podia adquirir  800 gr. de açúcar,  350 gr de arroz; 250 gr. de sabão, 1 dl. de azeite. 

Como nem só de alimentos vive a humanidade, a Drogaria Pedroso publicita entretanto o seu “caspicida Star”, à base de iodo, rum e quina, que custa 60$00 o litro;  quem quisesse comprar ou vender um “fato usado” podia procurar no “Adelo Espanhol “, «que fica por detrás da loja do Leão e antes da taberna do Benito», como se lia no anúncio.
 
Uma vez em Lisboa, não podia deixar de se notar a novidade. Acabados de chegar da Inglaterra, percorriam, agora a cidade os novos autocarros de dois pisos.  Na Covilhã começava a falar-se na hipótese de passar a haver também transportes públicos urbanos na cidade; diziam os entendidos, que a solução para aqui seriam os “troleybuzes”. Estes nunca chegaram.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O Distrito da Covilhã

As pessoas que passavam pelo Praça do Pelourinho a caminho dos seus destinos, estavam mais preocupadas com as consequências que a Segunda Guerra Mundial  tinha nas suas vidas diárias – inflação, falta de géneros existenciais, racionamento e mercado negro - do que com os desenvolvimentos que ocorriam na Frente 

Aquele era o quarto ano da Guerra. O último acto iria decorrer sobre o solo japonês, em princípios de Agosto. Antes, como no teatro de revista, faltava ainda a apoteose final. Esta consistiu em matar as últimas 250.000 vítimas da Guerra.. Os Estados Unidos possuíam agora a bomba atómica e quiseram mostrar ao Japão e ao mundo, quão grande era agora o seu poderio militar. Escolheram para alvo duas cidades japonesas. Hiroxima e Nagasaki, cidades desarmadas sem guarnição militar defensiva logo, com o perfil adequado para sobre elas serem lançadas, sem risco, as duas únicas bombas atómicas utilizadas durante o conflito. Este sim, o único verdadeiro holocausto desta guerra.

A auto justificação dos autores do maior massacre da história em escassas horas, foi a de “apressar a rendição do Japão”. A história, para além de ligar indelevelmente a esta chacina bárbara o nome do seu responsável máximo – o vice-presidente dos USA, Henry Truman, um ex-empregado de retrosaria numa cidadezinha do Missouri , que tinha chegado à chefia do Estado devido à morte inesperada, em 1945, do Presidente Roosevelt -  veio demonstrar que o objectivo era mais vasto.  Pressentia-se que um dos aliados de então – a União Soviética - já se configurava como um adversário no período do pós-guerra que viria a denominar-se, “guerra-fria. O bombardeamento atómico foi sobretudo uma manobra estratégica de aviso futuro aos soviéticos.

É um tempo de contrastes. De desalentos, mas também de dinamismo e oportunidades. Devido à escassez de combustíveis, os Correios resolvem reduzir o peso das encomendas postais para o máximo de 2 kg; alguém, coloca um anúncio no jornal local dando a saber que procura uma camioneta que vá a Lisboa em serviço de transporte, para lhe levar uma mobília; o notável covilhanense que foi Vitorino Bonina abre, de sociedade com um familiar e um capital de 40 contos, a Perfumaria Bonina, um espaço onde para além de produtos de cosmética, se discutia vivamente a política local. Já então a grande luta de Vitorino Bonina nos seus escritos públicos era a constituição do Distrito da Covilhã; o editor discográfico de Amália espevita o mercado dos fonogramas de vinil lançando os discos “Ai Mouraria” e “Maria da Cruz;. Há açambarcamentos, há mercado negro, mas também há um sentimento de que está um tempo novo para vir e novas oportunidades.

A Covilhã tinha agora um novo presidente da Câmara, que substituía o dr. Luís Vítor Tavares Batista, um cidadão muito respeitado, que deixou para sempre o seu nome ligado a grandes obras de fomento na cidade e no concelho, …e a algumas histórias pitorescas. Muitos anos mais tarde, no momento em que era distinguido com uma alta condecoração da cidade da Covilhã, um dos seus filhos, o escritor Alçada Batista, recordava uma dessa histórias contada pelo pai: havia, numa altura qualquer, uma reunião de municípios na Figueira da Foz e o Presidente pediu a um vereador e lojista da Covilhã, que fosse lá em representação da Câmara. Ao regressar, e em resposta à pergunta do Presidente sobre como tinha decorrido a reunião, o lojista fez uma cara de desagrado e disse: - “Olhe Sr. Presidente, «aquilo» – tirando eu – era tudo uma choldra!”

O presidente escolhido para dirigir o município era agora o médico dr. Carlos Coelho. Também ele um “gentleman”, como um percurso clínico muito ligado à medicina pulmonar, e director do Sanatório das Penhas da Saúde, se não erro nas datas.  
Curiosamente nesse tempo, as populações não viam estes dirigentes como “políticos” no sentido actual da palavra, mas antes como pessoas com capacidade para desempenhar este género de cargos públicos, ou dizendo de outro modo, como as elites naturais do burgo, independentemente de serem pessoas da confiança política do governo.

Talvez também convenha acrescentar que a designação de “político” não tinha então a conotação pejorativa do nossos dias, desde a instauração da partidocracia como sistema constitucional democrático, e os inúmeros desvios que dentro dos partidos políticos lhes foram imprimindo imensos oportunistas e fura-vidas em busca de ascensão social –designados genericamente por “boys” e “apparatchiks” – contra o que alertava um político americano ao dizer durante a campanha eleitoral: “no jobs for the boys” (não vai haver emprego para os rapazes … do partido).

Uma última curiosidade: esta frase é geralmente aplicada de forma  pervertida, dando-lhe exactamente significado contrário ao que pretende expressar, ao expurgá-la da negativa “no”. Os partidos são geralmente acusados de, uma vez no poder, originarem um corrida das suas clientelas políticas aos aos empregos do Estado (o que até é verdade), mas contrariando a ideia que se encontra na génese da frase.

domingo, 7 de novembro de 2010

Uma guerra ainda longinqua...


Nós por cá tudo bem. Pela Praça do Pelourinho continuavam a passar as pessoas do costume. Um pouco por toda a cidade as pessoas, rotineiramente  conversavam sobre os mais diversos assuntos de actualidade local e nacional. Nada parecia indiciar, nos princípios naquele ano de 1939, alguma preocupação especial nas pessoas, em relação a uma tensão internacional latente que se ia materializando em muitos pontos da Europa.

Na sala de leitura do Ginásio da Covilhã, comentava-se uma local do Século onde a par das sazonais notícias de Inverno sobre os malefícios que a gripe estava a causar em muitos locais, podia ler-se que o mal afligia também a Rússia onde a imperatriz Catarina II teria escrito a um seu familiar no estrangeiro, “todo o meu império está a espirrar!”; durante uma epidemia de gripe, o rei Afonso XIII de Espanha foi a primeira pessoa atingida, razão porque a doença foi designada com o nome de “gripe espanhola”, variante da doença que viria a ser tragicamente conhecida, sobretudo sob o nome de “pneumónica”.

A imprensa da cidade por sua vez dava destaque à inauguração das instalações da Comissão Municipal de Turismo, em plena Praça do Pelourinho no prédio que faz esquina com a Rua Direita actualmente comendador Campos Mello. Cerimónia importante que contou com a presença do Governador Civil António Pinto, da Câmara representada pelo Dr. Luís Tavares Batista e Alexandre Espiga Júnior; o tenente José Amaro chefe da Polícia, foi também um dos convidados que esteve presente. À Comissão propriamente dita presidia o Dr. José Ranito Baltazar que, na cerimónia  se fazia acompanhar por outros membros: Alfredo Santos Marques e o Prof. António Esteves Lopes.

António Nobre, foi um homem notável que se estabeleceu na Covilhã. Para além de ser na época o fotógrafo mais importantes da cidade  (onde parará o espólio fotográfico deste artista?), a sua cultura musical marcou a vida artística da época em que viveu entre nós. Foi regente do Orfeão da Covilhã, a sua esposa D. Laura Nobre era uma pianista credenciada pelo Conservatório de Música do Porto e uma das filhas, fez estudos como cantora lírica. Na época para que se faz o enfoque, António Nobre levava a cabo mais uma das suas realizações artísticas: a 7.ª edição do  Concurso de Arte Fotográfica.   
nas instalações do Grémio do Comércio. Concorrem 33 expositores com cerca de 200 fotografias. António Nobre, pela animação cultural que transmitiu à Covilhã, merecia também ter o nome ligado à sua toponímia. Não está. Mas está a Catarina Eufémia e outros …

Os polícias em regra não têm grande simpatia entre as populações. Mais ainda naqueles tempos, em que a instrução exigida aos agentes era muito rudimentar e o seu recrutamento feito sobretudo nos meios rústicos pobres. O Intendente Pina Manique, o polícia supremo do Marquês de Pombal, também não era uma figura muito querida em Lisboa e no país; entretanto deixou atrás de si uma obra notável que ainda hoje está bem à vista. Quem mandava na Polícia da Covilhã, era então o tenente Amaro. Estimado por muitos, detestado por outros, o seu saldo de popularidade era francamente positivo. O Pelourinho assistiu à imponente manifestação social que constituiu o seu funeral.

O tenente Amaro entre outras virtudes, tinha a de patrocinar entusiasticamente a construção da Colónia Infantil da Montanha. As muitas contribuições voluntárias que iam surgindo – lê-se aqui na imprensa local que «Lopes & Podão» enviam 10 mantas e o Sindicato dos Operários 50$00» - eram enviados ao Comandante da Polícia. Outras contribuições para a construção da colónia de férias para os filhos dos trabalhadores têxteis, não eram assim tão voluntárias. Por exemplo: duas vizinhas engalfinhavam-se, insultavam-se e provocavam escândalo público. A polícia intervinha e levava-as para a esquadra. O tenente Amaro, perante a diminuta dimensão do caso entendia geralmente não dever sobrecarregar os tribunais com mais um processo: Perguntava-lhes: - Querem fazer as pazes, voltar para casa e prometerem-me que não voltam a fazer escândalo público? Se a resposta era “sim”, a penalização para elas determinada pelo tenente Amaro provavelmente seria uma contribuição de 5 escudos para a Colónia Infantil da Montanha.

Enquanto isso, algures na Europa estavam a criar-se as condições que iriam levar a um conflito bélico que mobilizaria mais de 100 milhões de militares dos quais cerca de 70 milhões viriam a morrer.  Era como se ouvisse ao longe os tambores a rufar …